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Convidados, Cotidiano

Duas senhoras conversando

Duas senhoras conversando:

_ Pois é lembra que nós estávamos vendo imóveis para comprar? Mudamos de ideia.

_ Nossa, mas por quê? Já haviam até posto a casa a venda.

_ Ah, sabe como é o Júnior (com 7 anos) disse que ele não queria se mudar. O que nós podíamos fazer? Desistimos. Como vamos levar ele para um lugar que ele não quer ir?

_Eu sei como é, quando a Taís (com 9 anos) começou a ir para escola também foi bem complicado, ela não gostou das escolas que nós achamos que seria melhor para ela. E acabamos deixando ela em uma escola que fica bem contramão. Não é a melhor, mas fazer o que?!

O menino chega:

_Mãe, mãe! Mãe, estou falando com você! Olhe para mim agora!

A mãe diz para amiga:

_Me desculpe, vou ver o que ele quer.

_Fala filho…

_Pega aquele chocolate para mim?

_Não! Já disse que só depois do almoço. De novo você vem me pedir?

_Mas eu quero agora, depois não vou querer mais e você comprou ele pra mim.

E faz ar de emburrado.

A mãe tenta conversar:

_Filho, já foi feio o escândalo que você fez no mercado para eu comprar esse chocolate, o que é que nós combinamos? Que você iria comer só depois do almoço. Lembra?

_Por favor mãe, só dessa vez… eu prometo que não faço mais… é que eu quero muito comer agora, depois não vou mais querer…

_Tá, pegue o chocolate e suma da minha frente! E nunca mais faça isso, da próxima vez…

O menino saiu com o chocolate dizendo:

_Tá, tá mãe não enche… já ouvi.

A amiga diz:

_Está cada vez mais difícil educá-los. A Taís me faz de gato e sapato também.

_Sabe, acho que a culpa é dos avôs dele, dão tudo o que ele quer. Não aguento mais isso.

_ Sofro do mesmo problema, a minha sogra parece que fazem de propósito! Ela compra tudo o que ela quer no mercado. Depois como eu vou dizer não? E eles nem respeitam mais a gente.

_Já dei até uns tapas nele semana passada, mas não adianta. Ele continua me destratando. E com pai é pior ainda. Esses dias ele disse para o pai que calasse a boca porque ele queria ouvir o desenho. Quando o pai argumentou que não falasse assim com ele, ele simplesmente virou e disse fez sinal para o pai parar de falar. Aí para não piorar a situação nós saímos da sala e fomos conversar na cozinha.

Essas situações se tornaram cada vez mais comuns na nossa sociedade. Mãe e pais simplesmente permitem que seus filhos ditem as regras e os desrespeitem. Os pais se submentem aos caprichos das crianças. Essa inversão de papéis causa um mal estar gigante, as relações se torna cada vez menos afetivas. Uma vez que é enfadonho ficar perto de uma criança que ao invés de obedecer; manda. As crianças não tem maturidade para se autogovernar. Essa postura dos pais e familiares prejudica o crescimento intelectual da criança que ao se ver como autoridade não consegue se relacionar adequadamente. Lembrando que para relacionar-se é preciso um mínimo de jogo de cintura. Para isso é necessário ceder, obedecer e respeitar os outros. Capacidades que são escassas atualmente. Ao chegar na escola a criança, que em casa manda, se vê em pânico geralmente. Como não aprendeu com a família a lidar com a frustração adequadamente acaba sendo capacho dos outros alunos. Sentem dificuldade em se socializar. Desesperados por ver que não funciona como em casa, os colegas não obedecem ao seu comando. Essas crianças acabam aceitando todas as imposições dos colegas. Não aprenderam a negociar, a trocar e a se valorizar. É triste ver esse quadro de crianças tão pequenas se mostrando tão submissas a outras, o rombo na autoestima que isso vai causar é imenso. Os pais por sua vez pagam a preguiça de educar. Afinal é muito mais fácil acabar logo com o choro do que ficar ouvindo e sustentar o não. É muito mais fácil ceder. Deixar a responsabilidade para o outro, mesmo que isso represente um absurdo, pois se tratam de crianças. É covardia dos pais fazer isso.

Quem ganha com isso são as indústrias, que ao colocar as crianças no comando vendem muito mais, afinal criança não tem maturidade para entender como funciona nossa sociedade, nem noção de gasto, ela só quer. Para o país é uma lástima. Para aprender é necessário frustração, e frustração é algo proibido de se dar para esses pequenos. Que se mostram cada vez mais incapazes de pensar. Uma massa de consumidores desenfreada será como uma nuvem de gafanhotos. Eles só sabem que querem mais e mais… Se no começo isso impulsiona a economia, gerando um alto consumo interno, a longo prazo acaba com a economia, é preciso um equilíbrio entre trabalho e gastos. Se houver um índice muito alto de inadimplência, haverá uma quebra de empresas de médio e pequeno porte, sem emprego, sem giro da economia interna, voltamos a ser dependentes da exportação somente, isso representa um ciclo muito perigoso.

Kelly Heloise Ivanoski é pedagoga (ISE-Sion). Este artigo reflete as opiniões do autor. O site não se responsabiliza e nem pode ser responsabilizado pelas informações acima ou por prejuízos de qualquer natureza em decorrência do uso dessas informações.

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Discussão

5 comentários sobre “Duas senhoras conversando

  1. muito boa e pertinente esta abordagem sua… penso que Responsabilizar-Se é o desafio de todos nós… se hoje as crianças “mandam” nos pais e são “mandados” por outras crianças… e os pais não querem se estressar, nem frustrar os filhos… numa geração anterior a essa, já anunciava este tipo de comportamento… pois tinha aquela idéia de que ” se der ao meu filho, tudo aquilo que não tive, está certo… ou, não vou dar nada além do que tive, dou o mínimo e ele que se vire… ” então, no Assumir Responsabilidades (desenvolver habilidades), talvez esteja a origem do problema… acredito que é preciso se desenvolver, aprender e praticar valores éticos (os princípios)… antes dos prazeres e valores monetários… antes da realização profissional e do status social… a tal ” frustração ” já vem dos pais… passa de geração pra geração… então, além de educar as crianças, os adultos e pais tem que superar seus traumas e angústias… pois se projetam nos filhos, transferem aquilo que não conseguiram ou desejam viver, para uma criança… e ao mesmo tempo sem ter consciência disso… enfim, é preciso debater, discutir e propor possíveis soluções, e pra isso, temos que rever nossos conceitos, nosso passado… pois é de lá que viemos! E falo como padrasto de um adolescente e pai de uma bebezinha, hehe…

    Publicado por anovamente | 3 de setembro de 2012, 12:38 pm
  2. Bem colocado! Isso me lembra uma passagem de Freud em “Totem e Tabu”.

    “Somente alguém que possa sondar as mentes das crianças será capaz de educá-las e nós,
    pessoas adultas, não podemos entender as crianças porque não mais entendemos a nossa própria infância.
    Nossa amnésia infantil prova que nos tornamos estranhos à nossa infância.”

    Educar é relacionar-se. Relacionar-se é se expor. É um grande desafio.

    Publicado por kellyheloisee | 3 de setembro de 2012, 7:15 pm
  3. Muito bem colocado! Isso me lembra um passagem de Freud em “Totem e Tabu”

    “Somente alguém que possa sondar as mentes das crianças será capaz de educá-las e nós,
    pessoas adultas, não podemos entender as crianças porque não mais entendemos a nossa própria infância.
    Nossa amnésia infantil prova que nos tornamos estranhos à nossa infância.”

    É um grande desafio certamente. Problematizar é um começo.

    Publicado por kellyheloise | 3 de setembro de 2012, 7:22 pm
  4. muito bom… muito bem!

    Publicado por anovamente | 3 de setembro de 2012, 8:39 pm
  5. Sem dúvida este é um tema complicadíssimo e muitas vezes frustrante, e nos leva a ver o futuro de uma maneira sombria. Atualmente estou lendo um livro bastante interessante e que talvez ajude a entender um pouco mais sobre este assunto por uma ótica mais ampla, a das gerações. O Livro se chama “The Fourth Turning”, infelizmente não encontrei este livro traduzido para nenhum idioma exceto o original em inglês. Ele aborda históricamente as características das gerações, como elas influenciam e são influenciadas pela história, e ainda a identificação de ciclos, ou seja, isto já aconteceu antes em nossa sociedade (evidentemente não na escala atual).
    O livro enfoca principalmente na sociedade dos Estados Unidos nos últimos mais ou menos 500 anos, porém ele se aplica em todas as sociedades modernas e sem dúvida o Brasil está se encaixando muito bem neste caso. Também vale resaltar que o livro foi escrito em 1997, e baseado na análise do passado ele traça o provável futuro desta sociedade para mais ou menos até 2025, e hoje, 15 anos depois é incrível como ele está atual.

    Publicado por fabiosandi | 5 de setembro de 2012, 9:18 pm

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