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Cotidiano, Vinícius Armiliato

Resposta a uma Mesa Ordinária

Deixei vocês mudos. O que mostrei para os aqui presentes foi o que faço depois de anos de trabalho. Não sei o que quero dizer com as coisas que surgem com a minha obra. A minha obra é digna, acho eu. Não porque ela é boa, porque ela agrada críticos ou porque tem qualidades técnicas que poucos artistas conseguiriam alcançar.

A minha obra é o que é, boa, digna ou sei lá o quê, porque eu estou nela. Ela parte das minhas vértebras, das minhas vísceras, da minha dor de existir. Minha obra, que nada mais é do que as minhas paixões, o meu pathos, não consegue ser posta em palavras comercializáveis, debatíveis com a literatura técnica, acadêmica, rancorosa, apegada, cega, fria, que fica pairando sobre as suas retinas, antes mesmo de vocês começarem a olhar o que eu faço.

Mas por essa obra ser minha, ser um pedaço do meu corpo, ser um órgão imprescindível para a manutenção da minha existência, é que eu me sinto à vontade para não falar dela. Me sinto à vontade para, aqui na frente de vocês, críticos, acadêmicos, avaliadores, formuladores de editais, estudantes de semiologias, contar que eu usei os recursos públicos do vosso edital para me alimentar, e que a minha obra já existia antes de vocês. E que não é graças a vocês que a minha obra nasce.

Não me torno artista só depois que o estado libera seus recursos. Minha arte não se converte em valores monetários, em valores linguísticos, em conceitos teóricos, em noções abstratas. Minha arte não é palavra, razão. Minha arte é isso que os senhores acabaram de ver, não sei com que olhos. Eu me sinto à vontade, aqui na frente de vocês, para não falar nada. Apenas olhar, no fundo de vossos olhos, atravessar a membrana pseudointelectual que está sobre a vossa retina e dizer a vocês: Fiquem à vontade, não é preciso falar nada.

Se deixem levar, ao menos um instante, pela arte. Depois desse acontecimento artístico construído com vocês, me sinto à vontade para dirigir-lhes palavras obscenas e perguntar-lhes, avaliadores: qual é a obra de vocês? O que vocês fizeram para serem postos nestes postos à minha frente? Quero saber.

Eu me sinto à vontade também para lhes dizer que eu não estou pensando em como investir, fazer render, proliferar, produzir cultura, como o vosso edital prevê. Eu me sinto à vontade para lhes contar que não pretendo ser o violino número 1, tampouco o bailarino número 1. Eu me sinto à vontade para perguntar-lhes quando foi a última vez que vocês choraram. Quando foi a última vez que pensaram que vocês não servem para nada? Quando foi a última vez que resolveram abandonar tudo em que pensavam ser especialistas? Me arrisco a convidá-los a pensarem nesse dia, no qual quiseram por fim às suas vidas, quando olharem minha obra. Assim nos sentiremos um, unos, trocaremos juntos e quem sabe combinemos um manifesto artístico contra as mentiras que cada um de nós construiu sobre sua própria vida, e nos mataremos juntos.

Vinícius Armiliato é psicólogo clínico (PUC-PR), artista (FAP) e mestrando em Filosofia (PUC-PR). Este artigo reflete as opiniões do autor. O site não se responsabiliza e nem pode ser responsabilizado pelas informações acima ou por prejuízos de qualquer natureza em decorrência do uso dessas informações.

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Discussão

8 comentários sobre “Resposta a uma Mesa Ordinária

  1. amigo irmão de corpo e alma, do visível e invisível, do expressivo e do inefável… respondo e compartilho a sua arte vida, com palavras… me sinto livre lendo sua declaração de amor a existência… como um anjo caído… como um humano-divino… lhe saúdo… com um agradecimento: OBRIGADO POR VOCÊ EXISTIR! em nome do indizível… SOMOS ARTE… VIVOS ESTAMOS… (assinado por mim e eu mesmo)

    Publicado por anovamente | 27 de agosto de 2012, 12:12 pm
  2. Palavrações dignas de uma reflexão íntima e descontrutiva de nossos ocos pedestais que construímos para nossa própria distanciação da essência do eu-puro, do eu-si, do eu-nós!
    Mais que palavras, um convite ao Kaos, para que o Eu-Todo possa soprar novamente sobre nós o Espírito vivificante, para que haja o Verbo atuante sobre o Vale dos ossos secos… Assim, caminhemos tu e eu, meu igual, meu nobre artista da essência. Quanto ao chorar, tenho conseguido fazê-lo, desconstruindo, assim, a embriaguez de minha superficialidade. Caminhemos então, e choremos, esperando que o Vento Impetuoso faça-nos mais ousadamente sinceros! Valew pelo post, Vinicius.

    Publicado por Eder Silva | 28 de agosto de 2012, 9:28 pm
  3. E QUEM SERÁ O PRÓXIMO A FAZER UMA DECLARAÇÃO DE AMOR HEIN!? TO ESPERANDO PACIENTEMENTE…

    Publicado por anovamente | 29 de agosto de 2012, 12:39 pm
  4. hahaha… é o DIÁlogo, o DIAleto dos loucos néh… tem que haver espada e escudo… doce e amargo… vinho e pão… e fico grato pela parceria!

    Publicado por anovamente | 29 de agosto de 2012, 6:33 pm

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