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Cultura Política, José Augusto Hartmann

A esquerda hoje

Desde o fim da União Soviética fala-se do fim da esquerda no mundo. Associa-se, para isso, sua trajetória ao bolchevismo, talvez pela representatividade que teve no século XX. Nesse caso é desconsiderada a construção da China comunista. Talvez por ser recente sua ascensão econômica e militar, talvez por ser muito claro que é um país capitalista. Na Venezuela fala-se em socialismo do século XXI, entretanto poucos sabem o que isso realmente significa. Aliás, o que isso realmente significa?

Contudo, sabe-se que a esquerda não se limita a experiências de socialismo “real”, “de mercado” ou “do século XXI”. Só para exemplificar, cabe lembrar do “expurgo” que Stalin promoveu, afastando um dos mais notáveis teóricos da Revolução Russa e do marxismo, Leon Trotsky, morto a golpes de picareta por capangas do ditador soviético. Trotsky não aceitava a ideia de socialismo de um só país. A Revolução Permanente seria fundamental para a defesa dos interesses dos trabalhadores. Entretanto, o proeminente articulador nacionalista Stalin estava mais preocupado com o desenvolvimento da União Soviética, como mais uma potência imperialista – no caso superpotência.

Mas, repito, sabe-se que a esquerda não se limita a algumas experiências bem-sucedidas ou frustradas. Sua noção surge nos eventos que levaram à Revolução Francesa. Os membros menos privilegiados no campo econômico, e mais radicais quanto a necessidade de desestruturação do Antigo Regime, recebem o nome que seria, desde então, relacionado a luta por melhor distribuição de renda e combate de privilégios econômicos. Por isso, os vários grupos socialistas que surgiram no século XIX, como anarquistas, comunistas, socialistas cristãos, “utópicos” e outros, foram relacionados a esse lado do espectro político. No século XX viu-se esses movimentos embeberem revoluções e reformas.

Se por um lado a esquerda foi associada aos grupos menos privilegiados na nova organização econômica, a direita foi associada aos defensores da desigualdade social, ou melhor, da manutenção de critérios iguais numa competição que envolve membros desiguais. Mais ou menos como deixar competir campeões olímpicos com recém-nascidos.

Mas aqui voltamos à questão inicial. O que é a esquerda hoje? Se experiências revolucionárias, propostas por vanguardas foram fracassadas, uma vez que permitiram a instalação de uma elite perniciosa, como no caso soviético, ou por não poderem organizar sua economia num mundo imperialista, como no caso cubano, o que pode a esquerda? Deve-se, então, rever dois casos. Primeiro a formação do Estado de bem-estar social. Se considerarmos que as várias lutas de trabalhadores que puderam arrancar direitos, ainda que tendo de negociar com os patrões, estão na origem dessa formação, também falaremos de conquistas da esquerda. Segundo, se considerarmos os vários movimentos sociais, com interesses egoístas, diga-se de passagem, uma vez que lutam unicamente por seus interesses, no seu conjunto, como movimentos de esquerda, pois são movimentos de grupos desprivilegiados, também veremos conquistas da esquerda.

Nesse caso estaríamos diante de uma esquerda fragmentada, porém eficiente. Essa esquerda, parece, contudo, conseguir evitar Napoleões e Stalins, e ainda ser esquerda em sua essência.

José Augusto Hartmann é filósofo (FACEL) e historiador (UFPR). Este artigo reflete as opiniões do autor. O site não se responsabiliza e nem pode ser responsabilizado pelas informações acima ou por prejuízos de qualquer natureza em decorrência do uso dessas informações.

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Discussão

3 comentários sobre “A esquerda hoje

  1. falou e disse e esclareceu!!! ” (…) a DIREITA foi associada aos DEFENSORES DA DESIGUALDADE SOCIAL, ou melhor, da MANUTENÇÃO DE CRITÉRIOS IGUAIS numa COMPETIÇÃO que envolve MEMBROS DESIGUAIS (…) ” e compartilho da idéia da “Esquerda em Essência”… estamos no início do Tempo das Redes… é Virótico… é Fractal… para existir a tão sonhada e praticada IGUALDADE… é preciso o abandono do único líder, um grupo fechado, que define os rumos… somos todos líderes em estancias, níveis e formas diferentes… é o que de alguma forma, fazemos aqui neste Blog… heheh…

    Publicado por anovamente | 23 de agosto de 2012, 12:29 pm
  2. Muito interessante essa ideia de movimementos viróticos. Ela mantém esperança nesses tempos tempos “líquidos”.

    Publicado por joseaugustohartmann | 23 de agosto de 2012, 3:28 pm
  3. I
    nterresante.

    Publicado por kellyheloise | 24 de agosto de 2012, 9:12 pm

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