//
você está lendo...
Eder Silva, Resenhas

On the Road again!

Assim que tivermos nos dado conta da comédia que é nossa situação, estaremos no caminho para o zen.” (Conrad Hyers)

Os grandes presentes não são fruto da análise. Tudo de bom está na estrada” (Ralph Waldo Emerson)

Comecei a ler sobre a contracultura aos meus 23 anos, quando estava cursando a faculdade, e as informações já não custavam muito a serem processadas, criticadas e, utopicamente confrontadas com a minha geração.

Quando li On the road pela primeira vez, fiquei entusiasmado pela musicalidade improvisada no texto, pela ousadia e, principalmente a espontaneidade com que os personagens deslizavam pela linha do tempo e das situações que os acometia. Eu conseguia projetar esta geração na minha imaginação, ou seja, uma geração na qual a juventude era tida como um “estorvo social”, e que, pela situação cômoda, a cultura vigente na época se estancava numa fria tecnocracia aterrorizante, cujo grito de escárnio viria a ser projetado por dois jovens escritores oriundos da universidade de Colúmbia aliados a um hipster junkie que era 10 anos mais velho, denominado William Burroughs.

Havia nesses jovens (Kerouac e Ginsberg) o desejo de despertar uma geração, derramar seus corações e suas almas na busca de resgatar a efervescência espontânea nas formas escritas, refletindo-as  em suas atitudes, de modo a clamar pela pureza que outrora fora discursada em prol da formação do pensamento libertário estadunidense e que mais tarde foi progressivamente sendo trocada pela prepotência usurpadora de todo idealismo puro (beat) de um passado não muito remoto. Já não havia uma identidade, mas sim um status a ser egolatricamente alimentado, uma nação que antes lutara pela sua independência, acreditando no real valor de um indivíduo e que posteriormente trocara sua primogenitura por um prato de lentilhas, por um diadema que lhe conferiria a mesma “supremacia aterrorizadora” às quais seus colonizadores opressores haviam usado como método de aniquilação cultural à diversidade exterior ao seu habitat. Surgia então uma faísca, uma fagulha de lucidez misturada com um sonho de beatitude voltada para o essencial do indivíduo; o retorno à terra virgem, à conquista de uma nova Canaã obscurecida pelas conquistas bélicas. Nascia então a geração beat, os vagabundos iluminados.

A idéia de se projetar essa odisseia em um filme já havia sido iniciada por nomes consagrados como Francis Ford Coppola e Johnny Depp. Mas foi com Walter Salles que isso se tornou realidade. Um filme que nos traz a saga de uma geração que clamava “gritando e dançando em louvor à Eternidade, demolindo a calçada, demolindo a realidade, gritando e dançando contra a orquestra no indestrutível salão de baile do mundo”. A linguagem claramente anunciava “Uivo”, acompanhado das cruas e alucinadas andanças metamorfoseando-se em movimento loquaz e viril, na busca da real liberdade, do mover-se livremente, sem destino, sem temor, sem cadência, apenas o movimento e o ritmo jazz como pano de fundo, aplicando o fluxo de consciência no que mais tarde se chamaria On the Road, a prosa que quebraria todas as convenções literárias e que se transformaria mais tarde na bíblia hippie dos anos 60. Daí surgiria todo um legado que influenciaria as gerações posteriores e que abalaria o establishment.

Para quem leu o livro, ao assistir o filme de Walter Salles não encontrará o drama melancólico de um Jack Kerouac frustrado. Se deparará apenas com uma das facetas desta geração, a “eletricidade atômica e bombástica”. Faltou o outro lado, o lado dramático, solitário e grotesto dos personagens. Mas o filme vale pela beleza das paisagens, chegando até a utilizar de técnicas que tornam as cenas mais envelhecidas. Porém, o filme peca pela superficialidade na dramaticidade dos personagens, sobrou respeito e faltou ousadia na interpretação dos personagens. Mas, em todo caso, vale a pena pela iniciativa, que desde 1979 estava encalhada nos projetos de Copolla.

Para quem quiser conhecer um pouquinho mais da contracultura, é só dar uma espiadinha em obras como “A contracultura através dos tempos”, de Ken Goffman e Dan Joy; “O Outsider”, de Collin Wilson; “On the road”, de Jack kerouac; “Uivo”, de Allen Ginsberg; “Almoço Nu” de William Burroughs, entre outros.

Até a próxima.

Eder Silva é turismólogo (UP) e gestor da informação (UFPR). Este artigo reflete as opiniões do autor. O site não se responsabiliza e nem pode ser responsabilizado pelas informações acima ou por prejuízos de qualquer natureza em decorrência do uso dessas informações

Anúncios

Sobre Eder Silva

I'm a outsider

Discussão

3 comentários sobre “On the Road again!

  1. Sempre que leio sobre os anos 60 fico me perguntando: e hoje? Atrás de quê andam os jovens? Estamos nos “padronizando”, nos adequando ao mercado, nos acomodando…ainda não assisti ao filme, tampouco li o livro. Mas logo resolvo isso!…rs…abraços meu camarada!

    Publicado por silvioavila | 22 de agosto de 2012, 9:34 am
    • Fala Silvio! Acredito que hoje ficamos olhando a banda passar cantando coisas de horror, parafraseando o Chico Buarque. Olha, todo o encanto foi quebrado, e já não mais há ideais a se defender! Só restos da festa que passou, só bexigas estouradas jogadas pelo chão! Ahhh chega de melancolia (risos)
      Abraços, brother, e até sábado, tomar aquele café medroso!!!

      Publicado por Eder Silva | 23 de agosto de 2012, 4:26 pm

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: