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Educação, Vinícius Armiliato

7 horas da manhã: um sorriso e um abraço carinhoso – aprendendo com Supernanny

Pais desesperados. Angústias sobre o que fazer. Qual é o certo? O que eu fiz de errado? O que eu não estou sabendo fazer? Dúvidas: quais os procedimentos recomendados por profissionais especializados? Choros pelas dificuldades de não se ver feliz e em paz com a família, com os filhos, ou com um engajamento específico que dizem ser necessário para educar os filhos. O que é um pai presente? O que é um pai ausente? Surgem profissionais, que se dispõem a ajudar, que estudaram mais que suficientemente para repassar boas técnicas, táticas, estratégias, a fim de colocar aquela famosa luz no fim do túnel. Do que estamos falando?

Estamos falando de um dos empregos mais pitorescos de técnicas de educação para as crianças, representado por Cris Poli (Supernanny). Sábado assisti um trecho de seu programa e ficou evidente para mim que estamos dependendo cada vez mais de saberes construídos por um discurso científico, dependendo de pessoas que tem graduações específicas para problemas específicos. Cris Poli, que sempre me traz dúvidas quanto a se ela é um personagem, uma profissional ou uma religiosa, resolve experimentar técnicas cuja metodologia lembra muito os rituais católicos, que evidenciam a culpa dos pecadores que não seguiram o caminho, a verdade e a vida. Sábado, aquela Senhora realizou com dois pais uma experiência única, um sadismo pseudocientífico: ver ambos sofrerem ao jogar dois bonecos idênticos aos seus filhos em um precipício, o que representava aquilo que os pais faziam na prática com seus filhos. Tudo isso, segundo o que a Especialista em Psicologia/Educação para o Desenvolvimento das Condutas que Não Interferem no Curso do Capitalismo acreditava ter visto nas observações preliminares. Em seguida, a referida especialista, que reforça o encarne do estereótipo de cientista ao segurar uma prancheta em suas mãos, anotando aquilo que os pais relatavam, propunha aos mesmos que jogassem em uma fogueira as folhas com as palavras que eles gostariam de expurgar de suas vidas. Supernanny relendo o uso da fogueira!

Depois de todo esse ritual, uma câmera acompanha a rotina da família, que agora carrega em sua jornada de heróis todo o aparato simbólico do rito de passagem, regado por muitas lágrimas (principalmente depois que a atriz Cris Poli ordena que joguem os filhos de mentirinha no precipício!).

Mas qual é o problema disso tudo? A espetacularização da vida, que mesmo piegas, me deixa um pouco assustado com a teatralidade que acompanha os aconselhamentos científicos. Teatralidade regada por uma ciência que para tornar-se mais vendável, sempre procura técnicas mais rápidas, práticas, eficientes. Para isso, essa mesma ciência ajuda a perpetuar a ideia de causa-efeito, na qual um simples procedimento técnico, como apertar um parafuso, soldar um fio, endireitar um prego, repor uma peça desgastada, dar um conselho, queimar as palavras que representam o que se deseja eliminar de si, jogar a imagem dos filhos no abismo, resolvessem um problema de existência.

Um dia falaram que o ser humano era uma máquina hidráulica e, até hoje, me parece que tem gente acreditando. Em sua técnica, a especialista estipula metas, traça planejamentos, aponta o que tem que ser mudado, indicando para os pais o caminho verdadeiro. Quanto mais choro e mais drama, mais eficiente é o trabalho da especialista. Por isso ela faz uma Psicologia para a TV, uma vez que ela vai trabalhar com parâmetros que embelezem seu trabalho. Não por resultados efetivos, nos quais o sujeito muda não apenas no nível discursivo. Supernanny não vai para além do “falar da boca para fora”. O que Supernanny vai fazer é seguir os critérios da TV. Uma boa sonoplastia para embalar os telespectadores, um choro bem emocionado que ela provoque nos pais, o close de um olhar de desespero, a imagem de uma criança agredindo violentamente a mãe… Isso é mais interessante! É a esse chefe, é a esse Senhor, que Supernanny trabalha.

São procedimentos espetacularizados que operam de forma a gerar um resultado eficiente. Nós nunca sabemos o que acontece depois de 1 mês de encerradas as filmagens. Mas isso não interessa. Não é importante saber se o método de Supernanny funciona. Acredito que ele funcione, pois o mestre que a faz trabalhar, que se chama capitalista (pode ser o dono da emissora, o diretor do programa, ou a própria Cris Poli que deseja aumentar o seu salário no final do mês e jantar em um restaurante melhor com seus filhos bem educados) não quer problemas. Como ele quer que as coisas operem normalmente, inventaram essas Psicologias/Educação para o Desenvolvimento das Condutas que Não Interferem no Curso do Capitalismo, o que faz que pessoas como Cris Poli consigam bons resultados. Por isso que dão exemplos de como matar subjetividades, padronizar condutas, eliminar subversivos, para milhões de telespectadores. A finalidade é que esses cumpram seus papéis de bons moços, dentro daquilo que as práticas científicas das Psicologias/Educação para o Desenvolvimento das Condutas que Não Interferem no Curso do Capitalismo, consideram como o mais adequado. (Olhem a citação da bíblia que está no site do Instituto Cris Poli: “‘Ensina a criança no caminho em que deve andar e ainda quando for velho não se desviará dele.’ Prov. 22:6”. Veja aqui)

A Supernanny não trabalha para seus clientes (os pais), caso contrário, acho que ela não usaria uma câmera com sonoplastia, closes, enquadramentos, a fim de transmitir seus conhecimentos em técnicas psicológicas e educacionais para o mundo.

Assista aqui a chamada do episódio em questão:

Vinícius Armiliato é psicólogo clínico (PUC-PR), artista (FAP) e mestrando em Filosofia (PUC-PR). Este artigo reflete as opiniões do autor. O site não se responsabiliza e nem pode ser responsabilizado pelas informações acima ou por prejuízos de qualquer natureza em decorrência do uso dessas informações.

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