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José Augusto Hartmann, Política Internacional

2008, uma crise anunciada: o que indicam China e Índia?

Ao se destacarem no âmbito econômico, e ainda manterem altos índices de crescimento, mesmo em um forte período de crise, os gigantes asiáticos da China e Índia chamam a atenção para outros fundamentos de seu vigor. Isso pois, a crise financeira que explodiu em 2008 não é uma simples crise econômica, mas, em grande parte, política. A bolha que se formava era uma tragédia anunciada. As explicações dos economistas pareciam mais explicações de investidores que contam com a ingenuidade de quem da economia só participa com sua força de trabalho. No mesmo balaio estavam os políticos, que se não tinham vantagens pessoais, podiam sustentar um aparente crescimento econômico. Aí se pode incluir Estados Unidos e Grécia. A lição de John Maynard Keynes precisou ser tirada da gaveta, como uma solução mágica.

Nessa lição não se escondia a desigualdade social, a ganância, o apetite devorador dos grandes investidores. Entretanto ela propunha limites. Lembrava que é preciso dignidade e participação no consumo por aqueles que sustentam materialmente a economia. Era preciso garantias sociais. E isso era um passo mais daquilo que havia sido iniciado com o fim do absolutismo. Num capítulo intitulado A via democrática para a sociedade moderna, de As origens sociais da ditadura e da democracia: senhores e camponeses na construção do mundo moderno, Barrington Moore Jr. realizou uma análise em que percebe o desenvolvimento de um processo social. Isso feito por meio de uma análise histórica. Nesse desenvolvimento, sustenta o sociólogo, poderia ser verificada a existência da ocorrência de três vias para o “mundo moderno”. Uma primeira via que levou ao Capitalismo e a Democracia Parlamentar. Seu trajeto foi o das revoluções burguesas, na Inglaterra, França e Estados Unidos. Uma segunda que foi o Fascismo. Caracterizado por uma industrialização e pela ausência de uma revolução popular. As revoluções que levaram a essa forma de “modernização” foram conservadoras e realizadas “de cima para baixo”. A terceira via foi a do Comunismo, realizado por revoluções camponesas. Nesse contexto, Barrington Moore expôs que a Índia, buscando uma “modernização” desde os anos 1960, não se incluiria nesses casos, o que seria explicado pelo atraso em relação aos casos anteriores, que passaram por processos violentos nos séculos XVII e XVIII.

O desenvolvimento da democracia, entendida pela ausência de arbitrariedade e pela participação popular na sua formulação, também pela organização agrária das sociedades, se dá pela inserção de camponeses e operários no âmbito político, não mais conservado unicamente com a monarquia ou a nobreza (e por que não pelos grandes capitalistas). Esse processo de distribuição do controle político, dos nobres para uma maior participação política popular, muitas vezes proporcionada por uma maior participação no âmbito econômico, dos camponeses e operários, foi realizado com o uso da violência. Logo, a sociedade liberal moderna é, em seu aspecto mais completo, uma ordem que permitiu a participação política de vários grupos, ainda que para isso tenha forjado tal participação violentamente. Nesse contexto o processo indiano pode diferir dos demais, o que o torna tema de fundamental análise. A China, por sua vez, também não participou do processo liberal. Fica a pergunta. O que indicam China e Índia, uma vez que nosso modelo parece não conseguir completar a promessa de participação efetiva da população em todos os âmbitos da economia?

José Augusto Hartmann é filósofo (FACEL) e historiador (UFPR). Este artigo reflete as opiniões do autor. O site não se responsabiliza e nem pode ser responsabilizado pelas informações acima ou por prejuízos de qualquer natureza em decorrência do uso dessas informações.

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