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Cultura Política, Eder Silva

Thoreau, sua obra literária

Ao passo que Thoreau se embrenhava mais na natureza, na busca da liberdade, da independência, da essência da vida, redigia o que seria sua obra prima: Walden, ou a Vida nos Bosques, que foi publicada postumamente, em 1854, portanto, 8 anos depois de sua experiência. “Sempre achava tempo para cuidar de suas plantações, menos na primavera de 1846, quando estava quase pronto para o prelo, época em que confessou plantar menos feijões e mais “sinceridade, fé, simplicidade, inocência e verdade”. Depois, preparou-se para escrever sobre Thomas Carlyle (não está no homem determinar seu estilo, assim como não pode determinar o rumo de seus pensamentos… Não, o pensamento tem sido sempre irregular e impetuoso… Quem se importa com o estilo de uma pessoa, contanto que seja inteligível – tão inteligível quanto seus pensamentos! Em literatura, assim como na realidade, o estilo nada mais é que ostylus”; a pena com que escrevemos; não vale a pena apontá-la ou poli-la em excesso, nem dourá-la, a menso que com isso se escreva melhor os pensamentos. É algo pra ser usado, não para se contemplar… A posteridade terá razões para agradecer Carlyle por ter de certo modo emancipado a língua dos grilhões que uma escola literária pedante e fútil lhe impusera; estabeleceu deste modo um exemplo de maior liberdade e naturalidade).

 Anteriormente havia publicado “Resistência ao Governo Civil” ou “A Desobediência Civil”, na mesma época em que Karl Marx havia publicado O Manifesto Comunista. Thoreau tecia uma crítica ácida aos mecanismos de controle do Estado sobre a sociedade civil. Vai mais além de John Locke, nos seus dois “Tratados sobre o Governo Civil”. Ele descreve a inutilidade do sistema politico, visto que se encontrava voltado para si mesmo, e não para o cidadão. “Nunca haverá Estado verdadeiramente livre e esclarecido, até que o Estado reconheça no indivíduo um poder mais alto e independente, de que deriva sua autoridade e seu próprio poder, tratando-o então adequadamente. Um Estado onde nascesse tal fruto, e que permitisse sua queda depois de maduro, prepararia o caminho para outro Estado ainda mais glorioso e perfeito, que também já imaginei, mas que ainda não vi em parte alguma.

Sua preocupação eram os princípios abstratos, e não uma reforma na sociedade. Afirmava que a única opção para se livrar da opressão de um governo era a resistência passiva.

Se a injustiça é parte de fricção necessária da máquina de Governo, deixá-la estar, deixá-la estar…; mais tarde, talvez, venha a se suavizar. Mas se a injustiça é de tal gênero que a obrigue a ser injusto com outrem, então, digo-lhes que transgridam a lei. Não nasci para ser forçado, respirarei a meu próprio modo. Se uma planta não puder viver de acordo com sua natureza, morrerá; do mesmo modo, um homem.

Enquanto que na obra “A Resistência ao Governo Civil” Thoreau anunciava a necessidade de o homem se libertar das garras do “Estado Leviatã”, em “Walden”, ele realiza a experiência de seu projeto, demonstrando que é possível na prática o que havia teorizado em “A Resistência…”. Vive na total liberdade, sem nada depender do Estado, por 2 anos e 4 meses.

Semana que vem prometo que terminarei este assunto, demonstrando as influências que Thoreau exerceu sobre a contemporaneidade.

Fonte:O Rebelde de Concord, de August Derleth, 1964, 168 p.

Eder Silva é turismólogo (UP) e gestor da informação (UFPR). Este artigo reflete as opiniões do autor. O site não se responsabiliza e nem pode ser responsabilizado pelas informações acima ou por prejuízos de qualquer natureza em decorrência do uso dessas informações.

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Discussão

3 comentários sobre “Thoreau, sua obra literária

  1. Grande Eder, estou me vendo obrigado a ler Thoreau…preciso achar um tempinho! Seus textos me despertaram uma curiosidade enorme no pensamento deste caboclo! Abraços!

    Publicado por silvioavila | 8 de agosto de 2012, 9:33 am
  2. Tenho muita consideração pela tua maneira de pensar, amigo. Já conversamos sobre a “era das ideologias”; e aprendi com seus argumentos a desconfiar delas. Não quero tentar te converncer, longe de mim, mas, Thoreau me chamou mesmo atenção não somente pelo ideário que ele colocou em seus livros, mas os fatos, a vida que ele levou, a atitude dele perante um Estado Leviatã que se levantava disposto a triturar e engolir aqueles que não o seguia cegamente! Vale a pena você ler “A Resistencia ao Governo civil” (aqui no Brail é Desobediência Civil) e depois ler o livro Walden. Um complementa o outro. Tenho certeza que é muito mais sadio do que o Zeitgeist, ao qual havíamos conversado. Abraços, mano.

    Publicado por Eder Silva | 8 de agosto de 2012, 8:36 pm
  3. Na verdade, eu tenho mais desconfiança que argumentos…rs…mas é uma maneira que aprendi tentando entender o porquê de alguém ter uma ” verdade absoluta” que só serve para ele ou a um pequeno grupo de pessoas, assim tento sempre absorver o que acho interessante (não o que é certo ou errado, não cabe a mim essa classificação) e a “não engolir” o que me causa estranheza. Somos todos “embriões” na arte de estudar fenômenos sócio-políticos, se nem mesmo os “cascas-grossas” se entendem, o que poderíamos tomar como certo, não é? Já estou ficando com medo da vontade de cursar faculdade de História, Ciências Sociais, Direito, Economia, etc…etc…rs…Vou procurar esses dois livros para ler (tenho que tirar um tempinho pra escrever a monografia também, que vergonha!…rs…), acho que devo encontrar algumas respostas nele que não encontrei em outros autores. Bom, qualquer coisa que não tenha tendência à limpeza etnológica é melhor que o Zeitgeist…rs…Grande abraço!!!

    Publicado por silvioavila | 9 de agosto de 2012, 9:12 am

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