//
você está lendo...
Cotidiano, Vinícius Armiliato

Sobre o espetáculo Exposição: Artistas refletindo artistas

Como se faz para tirar uma plateia viciada em conceitos, em noções sobre estética, em estilos de interpretação, em frases sobre o teatro contemporâneo, em autores europeus que versam sobre o sensível, sobre a partilha, sobre o dramático e o pós-dramático, sobre a arte de não-interpretar, sobre a escritura política, sobre a teatralidade e encenação contemporâneas, sobre o lugar do ator na sociedade pós-moderna?

Um público do cotidiano do teatro (de artistas, amigos e parentes e algumas pessoas aleatórias, que já aprendeu com toda a sua experiência e vivência teatral, como se fala sobre, se escreve sobre, como se denominam certas ações físicas, gestos dramáticos, microdramáticos, performatividades, corpos-mídia, e todo esse amontoado de conceitos bons para se passar em um edital) viu refletido diante de si essas elucubrações teóricas, tão desgastadas no cotidiano e muito bem elevadas, teatralizadas pelo espetáculo.

“Exposição” é um espelho para artistas.

Amontoado de palavras e frases prolixas, imiscuído das questões mais urgentes da vida de um artista. Teatraliza de forma única as famigeradas “referências” utilizadas para se montar uma obra de arte, tão uteis quanto temos que convencer nossos orientadores, mecenas, ou bancas avaliadoras de editais. Dói vender uma obra, dói fazer uma obra, dói ser artista. E por isso que o espetáculo é único: são artistas que levaram para um processo criativo questões de artistas. Por isso não se trata de uma exposição barata, como aquelas peças que ridicularizam as exacerbações teóricas sobre o teatro e a arte, e não te dão nada em troca. Em cada cena o espectador pode alternar-se entre o texto acadêmico, a reflexão vazia e barata que nos colocamos quando falamos de teatro na academia e, a vivência estética, artística, a troca de olhares, a interferência na cena, a colagem, o sentido aparente.

“Exposição” é uma série de significantes abertos dados à plateia, para que a mesma os elabore. “Exposição” coloca em questão os conceitos fechados, acadêmicos, mortos, sobre a arte, não os citando entre aspas, mas colocando-os em uma estética singular, corajosa.

Há muito tempo não assistia um espetáculo assim. Colagens, fragmentos que formavam um corpus. A plateia não quer ir embora ao final. O espetáculo acaba, mas fica um desejo de que mais aconteça, para essa plateia viciada e cansada de teatro-conceito e sedenta por uma experiência.

Esse texto que escrevo, essa crítica, não vale de nada. O espetáculo garante aos críticos uma vergonha pela palavra encadeada, razão, conceito, articulação teórica. O espetáculo adianta as palavras que serão escritas no dia seguinte, na seção de arte dos jornais. E para que escrever sobre então?

As palavras vazias que uma apreciação crítica contém, são válidas quando elas conseguem competir com o espetáculo em termos de “Quem consegue ser mais vazio? Crítica ou espetáculo?”. Por isso que os críticos conseguem manter-se em suas profissões: o teatro tem estado vazio.

Mas não é esse o caso de “Exposição”. Não é possível competir. O espetáculo antecipa os possíveis vazios de uma crítica, ao lado de uma experiência estética. Promove os vazios dos discursos em experiência estética. Por isso, se eu fosse crítico, acadêmico que escrevesse periodicamente para um periódico, chegaria em casa depois do espetáculo e repensaria a minha profissão.

No nosso mundo bombardeado de palavras e regulamentações sobre o que é o mundo, o que são as coisas, o que é o teatro, a crítica, a dramaturgia, a teoria, ou seja lá o que for, “Exposição” apresenta a situação atual dos nossos discursos e nos faz repensar sobre nossas pseudo-catarses do teatro.

O conflito do artista para com a vida, sua obra, seu mundo, aparece sendo morto, assassinado por um padrão de fazer arte, cujo homicida é o edital, formatando necessidades de criar alguma coisa AGORA. Criar alguma coisa de 40 minutos, que valha por 3.

Convites à plateia, cachorros farejando, Chiquitas Bacanas, angústias de artistas, cartas.

Palavras como “experiência”, “afetação”, “vivência”, “encontro”, enfim, tornam-se desnecessárias para pensar o espetáculo: nele há potencial para que esses conceitos de edital toquem efetivamente os espectadores. Teatralizados, estetizados, potencializados pelo labor cênico dos artistas de “Exposição”, as palavras viram sensações estéticas.

Escrever sobre “Exposição” é morder o próprio rabo. Trata-se de um espetáculo vacinado contra palavras estagnadas, acadêmicas. Digo vacinado, porque essas mesmas palavras estão inoculadas nele, em doses mínimas e suficientes para se produzir anticorpos, contra os conceitos teóricos e a racionalização que  sufoca nossa existência.

Cândida Monte, Dimis Jean Sores, Gustavo Bitencourt, Eduardo Simões, Mariana Ribeiro e Talita Dallmann, talvez vocês não hajam pensado em nada do que escrevi aqui, de qualquer forma, CONTINUEM!

(O espetáculo “Exposição” fica em cartaz no Teatro Novelas Curitibanas  até o dia 26 de Agosto).

Vinícius Armiliato é psicólogo clínico (PUC-PR), artista (FAP) e mestrando em Filosofia (PUC-PR). Este artigo reflete as opiniões do autor. O site não se responsabiliza e nem pode ser responsabilizado pelas informações acima ou por prejuízos de qualquer natureza em decorrência do uso dessas informações.

Anúncios

Discussão

2 comentários sobre “Sobre o espetáculo Exposição: Artistas refletindo artistas

  1. eureka! quero assistir, digo, experienciar essa vivencia artistica… valeu pela dica!

    Publicado por anovamente | 6 de agosto de 2012, 8:35 pm

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: