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Cultura Política, José Augusto Hartmann

As ovelhas da Inglaterra

Napoleon was better at canvassing support for himself in between times. He was especially successful with the sheep. Of late the sheep had taken to bleating ‘Four legs good, two legs bed’ booth in and out of season, and they often interrupted the Meeting with this.”

Assim George Orwell apresentou as ovelhas, capazes de sustentar a tirania do porco em Animal Farm. A incapacidade daqueles pobres bichinhos para entender o Animalismo as fazia se contentarem com o breve resumo proposto pelos porcos: “quatro pernas bom, duas pernas mau”. Entretanto, como o resumo era extremamente limitado, acabavam por atirarem-se em discussões inúteis e até prejudiciais, como, por exemplo a natureza dos pássaros (boa ou má), que têm duas patas.

Animal Farm”, ou a “Revolução dos Bichos” é um clássico antitotalitarista. Nesse texto, muito difundido por um filme de 1999, o autor apresenta de forma ácida e irônica a ditadura stalinista. Não faltam perseguidos, traição ao ideal, além da exploração que mantém o líder sobre seus liderados. Stalin é o porco Napoleão. Seu poder se sustenta na legitimidade simbólica que traz do apoio ao Velho Major, o intelectual da revolução, morto antes de poder usufruir dos frutos do fim da exploração do fazendeiro, o Sr. Jones. Mas somente essa herança não garante seu poder. Cães adestrados para o controle dos outros animais (pela força) e sucessivas mudanças nas regras, dos sete mandamentos do Animalismo, que somente alguns animais eram capazes de ler, uma vez que eram analfabetos, foram utilizados para manter a ordem corrupta.

A construção da traição de um sonho, e, principalmente da possibilidade de realização desse sonho, o distanciamento da política de bem comum pela qual todos os animais lutaram e deram seu sangue trabalhando é apreentada pelo autor ao longo dos capítulos. Uma a uma as regras acordadas após a vitória contra o Sr. Jones são subrepticiamente alteradas. Desde a proibição de animal dormir em cama, alterado para cama com lençol, após ser público que Napoleão dormia na cama da sede da fazenda o humor do leitor vai tornando-se amargo devido a proximidade com a realidade. O cume da indignação ocorre quando se chega na famosa “todos os animais são iguais”, mas “alguns são mais iguais que outros”.

Entretanto a sustentação do regime do porco somente foi possível pela incapacidade dos animais se livrarem do jugo imposto. Napoleão foi eliminando as possibilidades de resistência, enquanto os animais ainda buscavam construir sua liberdade de trabalho. Com o aparelhamento do regime de Napoleão restaram duas alternativas: o velha exploração do Sr. Jones ou a nova, de Napoleão. Antigos aliados, como o porco Snowball, passam a ser considerados inimigos da Revolução, assim como foi Trotsky no regime stalinista. O culto à imagem do líder Napoleão é reforçado em todo momento. A cada combate contra fazendeiros Napoleão é condecorado, ainda que não participe no front do combate.

Napoleão torna “Animal Farm” igual as demais fazendas, salvo o fato de ser dirigida por um porco. O hino “Beasts of England” é abandonado e toda atividade política torna-se culto ao líder. As ovelhas, acostumadas a repetir o que se pede, repetem a nova publicidade: “four legs good, two legs better”, legitimando os acordos entre Napoleão e os fazendeiros, que se reúnem para jogar entre copos de whisky. “Animal Farm” já não sustenta nenhum sonho e seu nome agora passa a ser “The Manor Farm”.

José Augusto Hartmann é filósofo (FACEL) e historiador (UFPR). Este artigo reflete as opiniões do autor. O site não se responsabiliza e nem pode ser responsabilizado pelas informações acima ou por prejuízos de qualquer natureza em decorrência do uso dessas informações.

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