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Cultura Política, Eder Silva

Thoreau, sua ideologia

foto retirada de: http://www.draventura.net

Semana passada falamos um pouco sobre o início da vida e obra do escritor naturalista estadunidense Henry David Thoreau.

Comentarei hoje sobre sua ideologia, princípios que o nortearam em meio a uma sociedade que apregoava uma Nova Jerusalém na América; uma terra pura, incontaminada; a terra prometida; enfim, estes mesmos que assim a projetavam, eram os mesmos que, através dos altos impostos cobrados obrigatoriamente aos cidadãos, prometiam-lhes expansão econômica através da redistribuição de terras conquistadas pela matança de índios e mexicanos. O dinheiro arrecadado pelos impostos eram aplicados na aquisição de material bélico para as tropas, que migravam motivados pela falsa ideologia, ou seja, a de exterminar os índios “selvagens”, os mexicanos e raças tidas como inferiores. [esse discurso já conhecemos através da pessoa de Hitler, Mussolini e outros facistas contemporâneos].

A este mesmo tempo, Thoreau, motivado pela sua consciência, rebelou-se contra esta ideologia de expansão territorial. Isentando-se de pagar impostos, manifestava seu repúdio e sua resistência so governo. Publicava artigos criticando a cultura política de sua época, enfatizando a liberdade para todos, o direito de se respeitar outras culturas, entre outros fatores, incluindo também a luta pela abolição dos escravos, ao lado de John Brown, o arauto na luta pelos direitos civis aos negros.

Com isso, Thoreau faz diversas conferências na defesa dos direitos civis, ao lado de pensadores ilustres que defendia os mesmos valores. Chamou para si a responsabilidade, e fazendo inimizade com as elites governantes, o que lhe custou sua detenção por um dia na cadeia municipal de Concord, onde, nesta mesma noite, escreveu sua obra prima, o livro “A Desobediência Civil”.

Este mesmo livro veio futuramente a inspirar sobremaneira Mahatma Gandhi na luta pela libertação da Índia.

Ao passo que publicava seus artigos contra o governo, se tornava cada vez mais decepcionado com a natureza dominadora dos homens. Isolava-se no tempo livre, em busca de aventuras na natureza. Aprendeu diversos métodos que, posteriormente, veio a lhe render sua mais intensa experiência, viver longe da sociedade, às margens no Lago Walden. Ali foi morar em 4 de julho de 1845, por coincidência ou por intensão, no dia da independência. Ali, em nada dependia do sistema, da sociedade. Passou a entender mais sobre a liberdade, sobre o essencial da vida, sobre sua própria e real independência. Foi viver da natureza selvagem. Experiência essa que lhe inspirou a escrever outro clássico da literatura, a obra “Walden, ou a Vida nos Bosques”, publicado posteriormente em 1854, e que trazia seus pensamentos mais sinceros sobre a civilização: “Seria vantajoso, mesmo em plena civilização materialista, viver uma vida primitiva no meio do mato, nem que fosse para aprender quais são nossas necessidades básicas e que métodos foram empregados para obtê-las, ou quem sabe dar uma olhada nos livros antigos de contabilidade mercantil, para ver o que é que as pessoas costumavam comprar nas mercearias, o que era armazenado, enfim, quais os artigos mais elementares, visto que o progresso pouco influenciou as leis essenciais que regem a existência do homem, pois nossos esqueletos, provavelmente, não se distinguem dos de nossos antecessores.”

Citava em seu livro frases de poetas como George Chapman: “Em troca da grandeza terrena a falsa sociedade dos homens os bens celestiais evapora“.

Mas, mesmo em seu isolamento, no Lago Walden, tinha sempre notícias de seus familiares e amigos. E, vez por outra, rumava à cidade para distribuir seus artigos de protesto. Era um homem solitário, porém simpático e alegre, motivado a alcançar seus objetivos.

Na sociologia política, há muitos que acreditam ser o socialismo uma utopia. E há também outros que, muito bem amparados e fundamentados, arriscam a dizer que a humanidade necessita de uma forma de governo, de modo a evitar o “caos”, segundo a visão hobbesiana. De fato, nós somos intensamente dependentes da sociedade. Nascemos nela, fomos enxertados nela, e, não sabemos como viver independentes de suas tecnologias, de suas formas de requintes. Contudo, há algo que pulsa, que se inconforma, dentro da alma de cada um. Algo que se move sobre a face das águas da vida; algo se se move sob a face do abismo das ilusões. Há uma terra virgem ainda não cultivada dentro de nós, e que clama pela liberdade que um dia, em um passado muito, muito distante, a nós foi confiada, e que, pela curiosidade e pelo desejo desenfreado perdemos de vista.

Mas Thoreau conseguiu provar para si mesmo que podia se desvencilhar da sociedade de consumo, que podia almejar o essencial, e alcançou enquanto esteve mergulhado na natureza virgem, na terra afastada dos interesses dos homens dominadores. Ali, alcançou o ápice de sua virtude, ali pode desprezar toda falácia da promessa corrupta de se estabelecer uma raça superior às outras. Foi um visionário, um profeta, um poeta, um arauto que serviu de instrumento divino para iluminar o lado sombrio e tenebroso de um processo ao qual chamamos progresso!

Fonte: Eder Silva, texto redigido em julho de 2012.

Eder Silva é turismólogo (UP) e gestor da informação (UFPR). Este artigo reflete as opiniões do autor. O site não se responsabiliza e nem pode ser responsabilizado pelas informações acima ou por prejuízos de qualquer natureza em decorrência do uso dessas informações.

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