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Educação, José Augusto Hartmann

O behaviorismo na educação

O behaviorismo se demonstra um conjunto teórico em que o sistema de estímulo-resposta garante o aprendizado. Considera-se, portanto, segundo essa corrente, a possibilidade de apreensão total da realidade. Deste modo, não se questiona a influência de interações com a realidade, ou, não se posiciona o campo científico num contexto específico, como de “revoluções científicas”, por exemplo. A ciência, nessa concepção, não sofreria as restrições de um determinado paradigma, nem se considera sua limitação. Pelo contrário, recebe um caráter de neutralidade, cabendo ao cientista, ou ao profissional da educação, a aplicação de métodos prefixados de estímulo-resposta.

Um autor que realizou crítica a crença de neutralidade na educação foi o sociólogo Pierre Bourdieu. Num texto dos professores Nadia G. Gonçalves e Sandro A. Gonçalves (2010) é apresentada essa análise em que se reconhece a tendência à reprodução da instituição escolar. Isso ocorreria, pois, há uma herança social e cultural que forja um determinado “habitus” no agente. O “habitus” poderia ser definido como “um ajustamento do agente, por disposições adquiridas pela experiência” (BOURDIEU, 2004, apud GONÇALVES, N.; GONÇALVES, S., 2010.). Desse modo, esse ajustamento influencia as ações do indivíduo e determinam, até certo ponto, a inserção dos agentes num determinado “campo”, ela “indica uma trajetória possível” (GONÇALVES, N.; GONÇALVES, S., 2010, p.67.). A escola, por sua vez, tornando-se reprodutora, ao selecionar em seu currículo o legítimo do ilegítimo, reforça a desigualdade entre os diferentes agentes. Como afirmam os professores:

Partindo do princípio da igualdade (de atendimento), e tratando alunos desiguais em suas origens e propriedades (capitais) da mesma forma, a escola acaba por reforçar as diferenças preexistentes, por meio do discurso pedagógico, na medida em que o que é avaliado nem sempre se relaciona com aprendizagem, mas com posturas e atitudes derivadas do capital social e cultural dos estudantes e de suas famílias (GONÇALVES, N., GONÇALVES, S.,2010, P. 69.).

Ainda que não se esteja tratando de determinação, a influência do “habitus” e do “campo social” apresenta-se como tendência. Do mesmo modo, Bourdieu defende que o agente tende à reprodução dessa realidade, legitimando a dominação. Isso se dá, pois, apresenta-se uma hipótese em que a escola é composta por indivíduos que têm a mesma chance de fracasso ou sucesso, dependendo exclusivamente de seu próprio esforço. Nesse contexto, não se evidencia a distinção dos “campos”. Como o agente não reconhece a “mística” desse discurso e acaba por reconhecer a proposta de suposta “meritocracia”, legitima a própria dominação. Cabe destacar que para Bourdieu, a formação do currículo “necessariamente exclui conhecimentos e culturas em favor de outros, ou seja, é arbitrária, e nesta seleção e imposição do que é legítimo Bourdieu identifica a violência simbólica” (GONÇALVES, N.; GONÇALVES, S., 2010, p. 70.).

Portanto, nessa concepção teórica, o behaviorismo acaba por se apresentar uma análise rasa, pois desconsidera a arbitrariedade na escolha de conteúdos e propõe um ensino em que se considere somente as relações de estímulo-resposta. O currículo não é posto em questionamento, o que é a fundamentação de uma desigualdade.

GONÇALVES, Nádia G.; GONÇALVES, Sandro A. Pierre Bourdieu: educação para além da reprodução. Petrópolis-RJ: Vozes, 2010.

José Augusto Hartmann é filósofo (FACEL) e historiador (UFPR). Este artigo reflete as opiniões do autor. O site não se responsabiliza e nem pode ser responsabilizado pelas informações acima ou por prejuízos de qualquer natureza em decorrência do uso dessas informações.

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