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José Augusto Hartmann, Política Internacional

A crise da coalizão no Paraguai

O Paraguai voltou a estar no centro das atenções do noticiário político sul-americano há algumas semanas. Desta vez o motivo é menos festivo. Se com a eleição de Fernando Lugo em 2008 comemorou-se no subcontinente a queda da hegemonia colorada, agora os fantasmas retornam. No último domingo, 01/07/2012 o jornal argentino Clarín publicou uma entrevista com o presidente deposto paraguaio.

Lugo, que apresenta uma trajetória política que é iniciada no movimento de esquerda de parte da Igreja Católica, mais especificamente na Teologia da Libertação, afirmou que sua visão da política era ideologicamente associada ao movimento religioso. Por isso, imaginava uma política que poderíamos chamar de ingênua, se desconsiderarmos que promoveu avanços.

O líder paraguaio e ex-bispo católico afirmou que no Paraguai, e poderíamos estender aos demais países do Cone Sul, “están acostumbrados a tener una actitud clientelar. Quisimos romper ese orden y hacer políticas sociales, y eso molestó.” Lugo não conseguiu implementar uma coalizão e se isolou com um movimento politicamente (no entender que Lugo chamaria de politicagem) fraco. Questionado por que o partido Liberal, antes parte da coalizão governista, não o apoiou, e, consequentemente, nem ao seu projeto de governo, o presidente respondeu que se devia exatamente por terem entendimentos muito diferentes sobre a política. “Yo podría hacer pacto con ellos, pero el precio iba a ser muy alto”, afirmou Lugo.

Neste ponto cabe um questionamento sobre o papel da política e das coalizões. Grupos de elites tradicionais são, seja no Paraguai como no Brasil, sistematicamente eleitos. Esses grupos representam um grande número dos parlamentares. Os eleitores, que em geral reclamam dessas elites, chamando-as de coronelistas, são os mesmos que as elegem em troca de migalhas (e não afirmo que essas migalhas são pouco para a maior parte desse eleitorado). Até mesmo as classes médias mais abastadas costumam votar nessas elites, seja por proximidade ideológica, parental ou somente intimidade. Por outro lado, ao eleger presidentes que não são originários dessas elites – e cria-se uma grande expectativa na sua ação – pode-se formar um problema de governabilidade. Os presidentes eleitos ficam entre duas possibilidades: – essa é a lição paraguaia – governar pactuando com as elites tradicionais ou se isolar e cair.

A escolha de Lugo foi a segunda, enquanto no Brasil Lula e o PT optaram pela primeira. Qual a melhor? Fora do governo, Lugo abre espaço para que as velhas elites tradicionais retornem ao Executivo, passando a ter o controle de todos os poderes. No Brasil Executivo, Legislativo e Judiciário parecem viver, pela primeira vez na história desse país, a necessidade de negociação. O Executivo precisa ceder, distribuindo cargos, e o alto número de ministérios é uma prova disso. Os demais poderes, por sua vez, também. Enquanto novos ministros do Supremo Tribunal são aceitos, o Legislativo aprova os projetos do Executivo.

Lula, entretanto, não percebeu isso muito cedo e quase caiu no escândalo da compra direta de parlamentares. Um economista poderia nos ajudar a saber o que é mais barato, mas politicamente falando percebe-se que a distribuição de cargos é muito mais segura, além de ser legal. Lugo não aceitou isso. Endureceu: “el Estado no es una torta que se reparte, al puesto hay que merecerlo.” Com os outros poderes não aceitou negociar. “Podía hacer acuerdos, pero después pasan un precio muy alto y no quería pagarlo.” Lugo sutentou sua visão de política e ética, mas o que foi melhor para o Paraguai?

Confira matéria no diário Clarín.

José Augusto Hartmann é filósofo (FACEL) e historiador (UFPR). Este artigo reflete as opiniões do autor. O site não se responsabiliza e nem pode ser responsabilizado pelas informações acima ou por prejuízos de qualquer natureza em decorrência do uso dessas informações.

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