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Eder Silva, Resenhas

Na Natureza Selvagem (Resenha)

Conhecendo a história de Chris McCandless, arrisco-me a citar uma frase de Schiller: “Quem não se arrisca para além da realidade jamais conquistará a verdade.” (SCHILLER)
Eu queria movimento e não um curso calmo de existência. Queria excitação e perigo e a oportunidade de sacrificar-me por meu amor. Sentia em mim uma superabundância de energia que não encontrava escoadouro em nossa vida tranquila.” (Leon Tolstoi, em “Felicidade Familiar“)
E assim começa a saga de Chris McCandless numa investida às mais íntimas e sinceras tentativas de um homem encontrar-se consigo mesmo, a despeito de um mundo que beira à esquizofrenia coletiva, e uma falta constante de sentido para as realizações.
A trajetória de Chris McCandless rumo ao Oeste, rumo ao Alasca, uma odisséia rumo ao desconhecido, rumo ao desafio, rumo à essência do humano com a natureza, selvagem.
Vejo nas linhas do livro, nas imagens do filme, e na beleza intrínseca da canção “society” de Eddie Vedder, a vida que percorre nas veias de cada um de nós. Os anseios, os temores, as grandes lacunas de nossa memória, enfim, palavras e ações que se combinam, arrebatando o espírito cansado da vida segura, mesquinha e idiota de uma sociedade decadente e descontente.
“…o deserto é o ambiente da revelação, estranho genética e fisiologicamente, sensorialmente austero, esteticamente abstrato, historicamente hostil. […] O céu do deserto é abarcante, majestoso, terrível. […] Ao deserto vão profetas e eremitas; pelo deserto cruzam peregrinos e exilados. Aqui, os líderes das grandes religiões buscaram os valores terapêuticos e espirituais do retiro, não para fugir da realidade, mas para encontrá-la.” (Paul Shepard em “Homem na paisagem: Uma visão histórica da estética da natureza“).
Segue a aventura de Chris McCandless, ou melhor, Alexander Supertramp (super andarilho). Ele fica emocionado com a austeridade das paisagens. O deserto aguçava a doce dor de sua aspiração, amplificava-a, dava forma a ela em geologia ressequida e puro raio de luz. Ele estava solitário, vivo na natureza selvagem, procurando se desligar dos emblemas metafísicos, procurando se embrenhar mais no coração da vida. “Estava sozinho no meio de um ermo de ar bravio, entre águas salobras, entre a colheita marítima de conchas, entre claridades cinzentas embaçadas”.
Rumou por lugares como Orick, Pistol River, Coos Bay, Seal Rock, Manzanita, Astoria; Hoquiam, Humptulips, Queets; Forks, Port Angeles, Port Townsend, Seattle, Willow Creek, Topock, México, Los Angeles, Detrital Wash, lugarejos do Colorado, Golfo da California, Las Vegas, Bullhead City, Niland, Anza-Borrego, Cartago (em Dakota do Sul), Fairbanks, Yukon, e por fim, o Alasca e sua neve persuasivamente mortal…
“…Não havia ninguém por perto, nem família nem pessoas cujo julgamento respeitasse. Em tal momento, sentia a necessidade de dedicar-te a algo absoluto – vida, verdade, beleza -, de ser regido por isso, em lugar das regras feitas pelos homens que tinham sido descartadas. Precisavas render-te a um tal objetivo último de modo mais pleno, mais sem reservas do que jamais fizeras nos velhos dias familiares e tranquilos, na velha vida que estava agora abolida e abandonada para sempre.”
(BORIS PASTERNACK, em “Doutor Jivago“)
“Mais que amor, dinheiro e fama, dai-me a verdade. Sentei-me a uma mesa em que a comida era fina, os vinhos abundantes e o serviço impecável, mas faltavam sinceridade e verdade e fui-me embora do recinto inóspito, sentindo fome. A hospitalidade era fria como os sorvetes.”
(THOREAU, em “Walden ou A vida nos bosques“)
Trechos sublinhados em livros encontrados com os restos de Chris McCandless.
Ao passo que seguia sempre em frente nas sua caminhada pelas sombrias, fantásticas e exóticas paisagens, também percorria pelas ideologias de pensadores como Tolstoi, Jack London, Boris Pasternack, David Henry Thoreau, Mark Twain, entre outras paradas obrigatórias; aliás, obrigatória é uma palavra que Alex evitava ao máximo. É a palavra que o outsider procura despistar, desprezar, depreciar!
McCandless buscava também a piedade. Acredita-se que ele não estabeleu nenhum relacionamento sexual com mulher alguma. Um dos livros encontrados no ônibus a seu lado era “A sonata de Kreutzer“, de TOLSTOI, no qual um nobre que se torna asceta denuncia “as exigências da carne”. Também circulou várias passagens do capítulo sobre “Leis superiores” do Walden, de Thoreau. Uma das frases sublinhadas: “A castidade é o florescer do homem; e o que se chama de gênio, heroísmo, santidade e coisas semelhantes são simplesmente fruto dela”.
A despeito deste pensamento, nós somos excitados pelo sexo, obcecados por ele, horrorizados com ele. “Quando uma pessoa claramente sadia, em especial um rapaz sadio, escolhe abster-se das tentações do sexo, isso nos choca e nos torna maliciosos. E levantam-se suspeitas. Sua ambivalência em relação ao sexo é semelhante à de gente célebre que abraçou a vida selvagem com paixão sincera – principalmente Thoreau (que foi virgem a vida inteira) e o naturalista John Muir – , para não falar dos incontáveis peregrinos, desajustados e aventureiros menos conhecidos. […] McCandles parece ter sido impulsionado por um tipo de luxúria que superava o desejo sexual. Ele foi essencialmente atraído para uma comunhão com a natureza, para o Norte, para o Alasca. Mas isso não o impedia de ser atencioso e amável para com as pessoas. Se interessava bastante nos sentimentos delas, se envolvia de maneira voluntária e desinteresseira.
Mas foi com um amigo veterano, Ron Franz, que McCandles absorveu o sentido da felicidade, cujo real significado é o “compartilhar”. No filme, este capítulo se chama “A Sabedoria”.
No seu íntimo, McCandles sabia que a felicidade não era possível de se conseguir na solidão, mas rumou mesmo assim, o caminhante solitário, até o derradeiro refluxo de sua memória familiar, onde, lá no Alasca, perto de sua morte por inanição, nos seus últimos dias, lera e fizera marcações sublinhadas com estrelas e colchetes no livro “O doutor Jivago“, de Pasternack:
“Oh, como se deseja às vezes escapar da estupidez sem sentido da eloqüência humana, de todas aquelas frases sublimes, para se refugiar na natureza, aparentemente tão inarticulada, ou na ausência de palavras da labuta longa e pesada, do sono saudável, da verdadeira música, ou de uma compreensão humana tornada muda pela emoção!”
McCandless escreveu em negrito acima do texto “NATUREZA/PUREZA”, e circulou no texto onde dizia “refugiar na natureza” com tinta preta. Ao lado de “E assim se conluiu que somente uma vida semelhante à vida daqueles ao nsso redor, mesclando-se a ela sem murmúrio, é vida genuína, e que uma felicidade não compartilhada não é felicidade. […] e isso era o mais perturbador de tudo”, ele escreveu: “FELICIDADE SÓ REAL QUANDO COMPARTILHADA”.
Podemos indutivamente pensar que essas últimas palavras sejam sinais de que McCandless estava preparado para retornar à sociedade, com o coração destravado, não mais como solitário andarilho, mas preparado a confrontar e ser confrontado pelos eternos dilemas da raça humana. Mas isso é uma suposição, pois “Doutor Jivago foi o último livro que leu”.
“Dormimos ao som do realejo; acordamos, se alguma vez acordamos, ao silêncio de Deus. E então, quando acordamos para as praias profundas do tempo aniquilado, então quando a escuridão deslumbrante rompe por sobre as encostas longínquas do tempo, então é tempo para atirar ao ar coisas, como nossa razão e nossa vontade; então é tempo de quebrar nossos pescoços correndo para casa.
Não há acontecimentos, mas pensamentos e o bater inflexível do coração, o aprendizado lento do coração de onde amar e a quem. O resto é pura conversa fiada e histórias da carochinha.”
(ANNIE DILLARD, em “Santa Firma“)
A beleza da história de McCandles se reflete na busca sincera pela essência da razão do ser, do sentido das coisas e afetos, dos diversos paradigmas que estão constantemente nos colocando em xeque-mate. É um mergulho no desconhecido da alma, no desconhecido das nossas limitações, o avanço à beleza inascessível, irrespondível, e instransponível àqueles que desejam apenas mornidão.
Quanto ao livro, as palavras de Jon Krakauer (autor do livro), fazem jus à maravilhosa história do garoto caminhante.
Quanto ao filme, a beleza das paisagens nos leva a vislumbrar a pureza da natureza, a beleza multiforme da criação divina (…).
Quanto às canções, refletem em nossa alma o impulso do outsider em busca de novos horizontes; a desintoxicação de uma sociedade fria e egolátrica.

Fonte: KRAKAUER, John. Na Natureza Selvagem. Companhia das Letras.

 Eder Silva é turismólogo (UP) e gestor da informação (UFPR). Este artigo reflete as opiniões do autor. O site não se responsabiliza e nem pode ser responsabilizado pelas informações acima ou por prejuízos de qualquer natureza em decorrência do uso dessas informações.
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Discussão

3 comentários sobre “Na Natureza Selvagem (Resenha)

  1. Muito bom, assisti o filme e sem dúvida está entre os meus favoritos

    Publicado por fabiosandi | 27 de junho de 2012, 6:32 pm
  2. muito valorosa sua resenha meu amigo… citações despertantes… e um conteúdo finitamente infinito! vou assistir o filme… só conheço o começo da história, hehe…

    Publicado por anovamente | 14 de setembro de 2012, 3:46 pm
    • Olha, Adriano, vale a pena mesmo assistir o filme. Tanto pelo enredo como pelas paisagens. Não sabia da possibilidade de apreciar a beleza gélida do Alaska, amigo. Então foi daí que percebi que, até mesmo nas coisas mais estáticas, pode sim haver beleza!!! Se quiser absorver mais detalhes sobre essa saga, então leia o livro do Jon Krakauer, que escreveu sobre a vida do Chris McCandless ou seu pseudônimo Alexander Supertramp (o supertramp vem dos beats, vagabundos iluminados); o Alexander provavelmente possa ter vindo de um personagem do livro O Doutor Jivago, ótimo livro do Boris Pasternak. Enquanto que a própria saga de partir para o Alaska, vem dos livros e experiência do Jack London, brother. Mergulhe nessa, mas não se esqueça de levar toalha pra enxugar as lágrimas! Abraços.

      Publicado por Eder Silva | 14 de setembro de 2012, 6:18 pm

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