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Cotidiano, Vinícius Armiliato

À MEMÓRIA DA MINHA VÓ

Quando eu era criança resolvi que começaria a conversar com os adultos, entrar no mundo deles para ser um deles. Falar de coisas sérias com maturidade. Observei que todos os adultos sempre tratavam de uma questão recorrente em seus diálogos. Algo introdutório talvez, mas essencial para desenvolver uma conversa séria: o clima. Comecei lá pelos 8 ou 9 anos treinando com a minha vó. Desde lá até hoje, nós conversamos e sentimos um prazer tão grande que tomamos várias cuias de chimarrão, o tempo passa, o assunto não se esgota, e nosso entusiasmo salta na voz alta e eloquente que trocamos.

A seca, o volume grande de chuva, o frio constante de Curitiba mais as alternâncias bruscas de temperatura estavam na pauta do nosso último diálogo. Sussurrando em voz alta, como fazem as senhoras com sotaque italiano, como a minha vó, ela disse:  “Deu no jornal que a chuva caiu por tudo, tudo, tudo, tudo, tudo”. Quando ela chegava nas repetições do “tudo”, fechava os olhos enquanto com uma mão apertava a cuia de chimarrão contra seu tronco e com o braço traçava um ângulo de 180 graus à sua frente como se estivesse vendo a plantação.

Ela me contou nesse dia, como nas outras vezes também, que sempre ficou doente por causa da inconstância do tempo. Mas nessa última conversa sobre o tempo ela contou algo inédito nos nossos diálogos. Ela foi no Dr. Maruri há uns dois meses que recomendou como fazer para nunca mais ficar resfriada, com rinite ou coisas do tipo. O Dr. Maruri foi categórico ao dizer que deveria tomar muita água mineral, porque esta vem debaixo da terra, e nenhuma comida. Há muito agrotóxico nas saladas e legumes, poluição de caminhões, carros e indústrias. O doutor disse que nem em casa dá para fazer horta, pois os “venenos” vem pelo ar. Por isso as pessoas estão doentes.  As pessoas estão ficando doentes porque hoje em dia tudo está contaminado. Por isso que ninguém mais tem saúde pra aguentar as mudanças bruscas do clima. “Ah, um pouco do sol também pra ajudar na circulação”, comentou a vó depois que o chão da cozinha se clareou rapidamente no momento em que o sol surgiu entre as muitas nuvens daquele dia.

Aos poucos minha vó está se privando do mundo com justificativas até do melhor médico da cidade de Concórdia, o Dr. Maruri, que hoje é o logradouro da principal rua da cidade e lembrança para alguns velinhos que o conheceram quando era vivo. Aos poucos a minha vó vai trazendo as coisas que já não acontecem mais. Aos poucos ela vai se preocupando menos com seu corpo. Aos poucos ela vai resolvendo não lembrar que seu corpo está pulando da casa de um filho para a casa de outro filho por tempos regulares, enquanto aquilo que sobra de seu corpo quer fixar-se em um lugar que algum dia foi seu. A sua casa foi vendida na herança que ela nem precisou morrer para deixar.

Mas aos poucos eu vou notando na nossa tradicional conversa, que muitos novos elementos e histórias são inseridos por ela como nunca antes aconteceu. Como nunca antes aconteceu de uma frase não ter conexão com a seguinte, como nunca antes aconteceu de uma coisa que se passou há anos ter se passado há dois meses. Aos poucos ela vai se desfazendo de sua postura de vó, mudando o olhar, as entonações, o conteúdo das frases. Aos poucos eu vou aproveitando para me fazer em outra postura também: de neto que conversa sobre o tempo, viro profissional que ouve. Não a vejo mais como alguém que sente falta de ter uma casa sua, ou com vontade de se sentir útil para alguém. Aos poucos não a vejo mais como uma pessoa que sente saudades da infância em que apanhou e foi humilhada pelos pais, ou com saudades do casamento que não a ensinou a distinguir sexo de estupro, ou como alguém que, como sempre ouvi de sua boca, se sente incomodando porque tem cheiro de velha. Agora ela virou um corpo, que não está funcionando muito bem. Como um especialista, catalogo frases e enquadro diagnósticos.

Enquanto discutimos o clima de Curitiba não me envolvo mais na colagem de frases que formam os diálogos cotidianos sobre o tempo. Agora, frio me distancio o suficiente para não me envolver afetivamente e para não me aprofundar verdadeiramente naquilo que se passa à minha frente. Aquele corpo que eu olhava, que segundos antes pertenceu à minha vó, que passou a falar frases sem sentido e sem conexão com o clima que já estávamos treinados a discutir juntos, foi se dissecando em funções psicológicas. Não olhei mais aquele corpo como pertencente a alguém que gosta de conversar qualquer coisa e tomar chimarrão com outrem. Não era um corpo de alguém que tem medo de incomodar os outros, que se sente sem lar e sem família. Em um simples estalo de dedos a minha vó virou uma velinha de asilo, daquelas que tudo o que as pessoas sentem por elas é compaixão pela caduquice manifestada.

Observando minha vó e apreciando aqueles fenômenos comportamentais, sou invadido com duas perguntas dela, que vem junto de um olhar de extrema dúvida, agora com um sussurro um pouco menos intenso: “Há quanto tempo que eu estou aqui nessa casa? Mas quem é você mesmo?”. Com voz tremida, face branca, pernas bambas e com vontade de chamar a minha mãe, balanço entre o cientista da saúde frio e o neto desesperado que não reconhece sua avó naquela velinha com quem está conversando. Traço a árvore genealógica da família partindo do pai dela até chegar ao meu nascimento. Não se lembrando de nada ela percebe o meu desespero, enche os pulmões retomando um ar que ficou alguns segundos suspenso: “Ah, é vero, si, si, querido, eu não lembrava”. Noto que ela se preocupa de fato em acalmar aquele jovem cabeludo que conversa com ela. Para resolver o embaraço, aquela senhora esquecida diz que já é tarde e que é melhor ir para o quarto dormir. “Você não sabe o que o Dr. Maruri disse sobre ir dormir cedo”. Já era tarde, segundo ela. Eu, fui almoçar na dúvida se a minha vó está perdendo a memória ou resolvendo não lembrar onde está e para quê está.

(Monólogo apresentado no espetáculo Partida, em novembro de 2011, Curitiba, PR).

Caros leitores, este foi o meu último post do semestre. Retornarei com novas publicações em Agosto, quando discutiremos onde está a Sociologia Política deste conto.

Vinícius Armiliato é psicólogo clínico (PUC-PR), artista (FAP) e mestrando em Filosofia (PUC-PR). Este artigo reflete as opiniões do autor. O site não se responsabiliza e nem pode ser responsabilizado pelas informações acima ou por prejuízos de qualquer natureza em decorrência do uso dessas informações.

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