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Educação, Vinícius Armiliato

Quer uma vaga? Passe no vestibular. Do privado para o público, do público para o (???)

Kysy Fischer observou uma inversão curiosa no curso da educação em nosso país, da qual me apropriei para escrever este post. Uma inversão que acontece depois de 11 anos de estudos no Ensino Fundamental e Médio. Mas não é uma inversão perfeita, tipo um X (“xis”), é uma inversão manca, que mais parece um y (“ípsilon”), ou seja, um xis sem uma haste.

São dois grupos que se invertem. Vejamos como acontece:

GRUPO 1

É o grupo de algumas crianças que vão para a escola, desde os 7 ou 6 anos, que tem algumas professoras e suas auxiliares, com turmas pequenas, paredes bem pintadas, pátio bonito, professores de música, educação física, balé, teatro. Utilizam sempre material novo e em excelente estado. Nessa escola essas crianças e jovens são levados pelos pais ou pelas babás, ou pelas vans, tudo é bonito e colorido. Na hora de ir para a escola, nos dias em que está chovendo, elas não se molham, pois tem carro, a rua até a escola é asfaltada e lá na escola não tem goteira. Essas crianças ficam em escolas como essas até os 16/17 anos. Tem laboratórios, aulas de reforço no contraturno, palestras, eventos preparatórios para provas, conteúdos novos, excursões para as aulas de história e geografia, enfim, tem muitos recursos disponíveis para um aprendizado digno.  A maioria das coisas acontece dentro do previsto, ou seja, os protocolos são bem cumpridos, os professores estão sempre presentes, se tiram licença são imediatamente substituídos, nos dias de chuva as aulas são dadas normalmente, visto que não tem goteiras, e os professores não paralisam para reclamar das condições de trabalho ou de seus  salários (se assim o fizerem serão substituídos). Ao longo dos 11 anos, essas crianças terminarão boa parte dos livros e apostilas, estudarão grande parte dos conteúdos necessários, sendo treinadas desde cedo para um grande protocolo da vida, chamado vestibular.

GRUPO 2

É o grupo de crianças, que vai para a escola desde os 7 ou 6 anos, que tem algumas professoras e às vezes tem auxiliares, raramente as turmas são médias, pois na maioria das vezes estão cheias (turma pequena é algo que não existe), as paredes às vezes estão pintadas, e muitas vezes estão descascando, com infiltração. O pátio não é coberto e não tem flor porque é de concreto. A quadra de futebol é nesse pátio, e os limites da quadra são pintados pelos calçados das crianças ou pelas mochilas. Nessa escola as pessoas são levadas pelos pais ou pelos vizinhos, geralmente a cor é cinza ou amarela, nos dias de chuva todos chegam molhados, porque quando se tem dinheiro para ir de ônibus, o ponto de ônibus é longe e, quando não se tem dinheiro, é possível ir com um guarda-chuva. Quando chegam na escola, quase encharcadas, essas crianças precisam ficar desviando das goteiras que tem nos corredores e dentro da sala. Às vezes os funcionários demonstram tristeza e, com razão, paralisam as aulas reivindicando aumento de salário. Essas crianças ficam em suas escolas até os 16/17 anos. Raramente existem laboratórios e, quando tem, muitos equipamentos estão quebrados ou o laboratório está trancado. Muitos dos estudantes não conseguem aprender de forma digna. Os professores até tentam promover excursões, mas quem tem que pagar são os alunos e, a maioria deles não tem um dinheirinho extra para pagar viagens, palestras, eventos. Então as excursões são, em geral, canceladas. Nem tudo acontece dentro do previsto, ou seja, os protocolos não conseguem ser bem cumpridos. Muitas vezes os professores se afastam por motivos de doença, pois suas turmas são muito grandes, o que gera uma sobrecarga de trabalho, então, quando conseguem com muito custo tirar uma licença ou afastamento por motivo de doença, não são imediatamente substituídos e as turmas esperam a sua volta da licença, que pode durar meses. Durante os 11 anos em que permanecerão nessa escola, essas crianças não terminarão todos os livros (as páginas dos últimos capítulos estão sempre branquinhas), e consequentemente, não aprenderão todos os conteúdos necessários para o grande sonho da vida de boa parte desses alunos, chamado vestibular.

E qual é a inversão?

Grupo 1: o primeiro grupo de crianças e adolescente pagava para estudar (os pais recebiam boletos das escolas todos os meses durante esses 11 anos);

Grupo 2: o segundo grupo de crianças e adolescente não pagava, pois era uma escola do Estado

Grupo 1: Depois dos 11 anos pagando, estranhamente, o primeiro grupo deixa de pagar, ingressando em uma universidade pública.

Grupo 2: Depois de 11 sem pagar, o segundo grupo não inverte como o primeiro. Não passa a pagar para a estudar e, se quiser uma vaga, vai ter que passar no vestibular. Os estudantes do grupo 2, antes crianças e agora quase adultos, aos 17 anos, para de estudar, e passa a trabalhar em alguma loja do comércio, nos arredores da universidade pública, vendendo para os jovens que passaram no vestibular.

Essa historieta é o mais puro exemplo de governamentalidade (Biopolítica, Michel Foucault). Sabemos que o vestibular mede conteúdos que supostamente foram aprendidos durante os anos escolares. Mas sabemos também que o instrumento de filtragem do vestibular retira a possibilidade de acesso à universidade pública de todos aqueles que foram privados dos conteúdos escolares. Se você não estudou em escola pública, e encontrar alguém por aí que estudou, pergunte como eram as aulas. Pergunte se existia continuidade de conteudos entre um ano e outro. Pergunte se todos os livros eram estudados da primeira à última página ou se ficavam capítulos de livros que nunca eram vistos. Pergunte se todos os dias tinha aula. Pergunte o que significa a expressão “aula vaga” e “adiantar aula” e porque essas expressões eram utilizadas. Pergunte a frequência em que elas eram utilizadas. Pergunte quanto tempo levava para substituir um professor em afastamento ou licença. Pergunte qual era o horário das aulas de reforço. Pergunte quanto alunos trabalhavam no contraturno. Pergunte se alguns alunos faltavam porque não tinham dinheiro para o ônibus. Pergunte se a merenda escolar era de qualidade. Pergunte se nos dias de chuva existiam goteiras na sala. Pergunte onde estão hoje, os colegas da sala de aula. Ou melhor, pergunte se eles estão na faculdade, e que cursos estão fazendo (medicina?). Pergunte com o que eles estão trabalhando agora.

Por isso o vestibular é uma tecnologia de governo. Se passar no vestibular é uma questão de esforço, porque uns tem que se esforçar demasiadamente mais e outros nem tanto? (de qualquer forma todos se esforçam).

Resposta a possíveis objeções:

Primeira objeção: Não estou defendendo a retirada da academia dos alunos que tem condições de pagar escola privada. Não se culpabiliza aqui o aluno do Grupo 1 por suas condições de estudo. O que acredito é uma possibilidade igual de acesso à educação superior pública e de qualidade, sem estar submetida a um controle de fluxos tão violento como o vestibular, que mais parece aquele instrumento utilizado nas bifurcações de trilhos de trens: os do grupo 2 vão para esse lado que tem linhas de montagem, comércio, trabalho braçal, e os do grupo 1 vão para esse outro, que tem universidades públicas, intercâmbios, bolsas de estudo.

Segunda objeção: Não estou chamando os pobres de mártires da escola pública. Eles seriam mártires se ao menos fossem dadas a eles condições para pensar em prestar o vestibular. No entanto, caro leitor, a maioria dos jovens de 17 anos tem que trabalhar como operário de alguma empresa e não prestam vestibular, acabando por deixar uma vaga para os filhos dos donos das empresas. Ah, eles também não tentam ser mártires porque eles nem cogitam, em sua maioria, a possibilidade de estudar, quando a necessidade de colocar dinheiro em casa, para comer amanhã, ou comprar remédios, ou pagar as contas, é urgente. Ser mártir e se esforçar para passar no vestibular leva muitos dias, talvez meses, e para quem está precisando de dinheiro para suprir as necessidades mais básicas de subsistência, não cabe tentar ser mártir.  Mártir não é milagreiro: com as condições de ensino que a maioria dos alunos de escola pública são submetidos é mais por milagre, do que por martírio, chegar na linha de corte para conseguir disputar uma vaga. O que será que significa o vestibular para uma turma de terceiro ano de uma escola pública localizada no Bairro Novo, aqui em Curitiba?

Então, as ferramentas de avaliação (como o vestibular), são para um público específico, que foi treinado para determinada ferramenta de avaliação.

Vinícius Armiliato é psicólogo clínico (PUC-PR), artista (FAP) e mestrando em Filosofia (PUC-PR). Este artigo reflete as opiniões do autor. O site não se responsabiliza e nem pode ser responsabilizado pelas informações acima ou por prejuízos de qualquer natureza em decorrência do uso dessas informações.

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Discussão

11 comentários sobre “Quer uma vaga? Passe no vestibular. Do privado para o público, do público para o (???)

  1. Parabéns, seu texto reflete a realidade nua e crua.

    Publicado por Rubiamara | 11 de junho de 2012, 10:55 pm
  2. um dos melhores que já li. Parabéns.

    Publicado por Letícia | 13 de junho de 2012, 6:12 pm
  3. Emocionei-me ao refletir, através da leitura, a cruel realidade do Brasil. Parabéns ao autor contribuiu muito em minha opinião sobre o assunto.

    Publicado por Dyullie L M Paes | 19 de agosto de 2012, 2:04 am
  4. puxa, que veracidade meu caro… vou indicar este texto imediatamente! e o parabenizo pelo ARTivismo teórico-prático… hehe

    Publicado por anovamente | 27 de agosto de 2012, 4:56 pm
  5. Vida longa a você, ao Blog, … à visão, reflexão, coragem e atitude!

    Publicado por CLAUDIODW | 28 de agosto de 2012, 7:02 pm
  6. Muito bom o texto Vinicius. Gostaria de deixar o link para um texto bastante interessante que talvez possa agregar ao assunto.
    http://www.mises.org.br/Article.aspx?id=1447

    Abraço

    Publicado por fabiosandi | 4 de novembro de 2012, 8:53 pm

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