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José Augusto Hartmann, Violência e Cidadania

Sobre racionalização, controle social e corpos disciplinados em Erving Goffman (Parte I)

Ao falarmos sobre controle social, disciplina e racionalização da punição buscamos imediatamente a contribuição presente em Vigiar e Punir de Michel Foucault. Entretanto, possivelmente um outro texto nos vem à cabeça. Isso pois a pesquisa realizada, e exposta aí, em muito contribui para a reflexão do tema. Entre os anos de 1954 e 1957, Erving Goffman foi membro visitante do Laboratório de Estudos Sócio-ambientais do Instituto Nacional de Saúde em Bethesda, nos Estados Unidos, onde realizou estudos de comportamento em enfermarias. Entre 1955 e 1956 realizou trabalho de campo no Hospital St. Elizabeths, em Washington, instituição com mais de sete mil internados. Neste trabalho buscou “tentar conhecer o mundo social do internado em hospital, na medida em que esse mundo é subjetivamente vivido por ele” (p.8). Importante ponto a acrescentar é a maneira de como o autor interpretou este mundo que é vivido subjetivamente pelo internado. Escreve, ainda no prefácio: “qualquer grupo de pessoas – prisioneiros, primitivos, pilotos ou pacientes – desenvolve uma vida própria que se torna significativa, razoável, e normal, desde que você se aproxime dela” (p.8). Assim, acredita que “uma boa forma de conhecer qualquer desses mundos [qualquer grupo de pessoas] é submeter-se à companhia de seus participantes” (p.8).

O autor trabalhou com o que chama de “Instituição Total”, o que definiu como: “Um local de residência e trabalho onde um grande número de indivíduos com situação semelhante, separados da sociedade mais ampla por considerável período de tempo, levam uma vida fechada e formalmente administrada” (p.11). Através dessa instituição buscou no “mundo do internado” “uma versão sociológica da estrutura do eu” (p.11). O trabalho de Goffman é apresentado em quatro artigos, a saber: As Características das Instituições Totais, A Carreira Moral do Doente Mental, A Vida Íntima de Uma Instituição Pública, e O Modelo Médico e a Hospitalização Psiquiátrica.

Para o autor os estabelecimentos sociais ou instituições são locais “em que ocorre atividade de determinado tipo” (p.15). Há instituições de várias ordens, umas abertas outras restritas, mas todas as instituições têm um “caráter total”, pois realizam um “fechamento”, na medida em que ocupa tempo e interesse de seus participantes. As Instituições Totais são aquelas onde há “proibições à saída”. Destas instituições foram verificadas cinco grupos. Para pessoas inofensivas; cegos, velhos, órfãos e indigentes. Para pessoas incapazes de cuidarem de si próprias e que ameaçam a sociedade de forma não-intencional; sanatórios para tuberculosos, hospitais para doentes mentais e leprosários. Para perigos intencionais; cadeias, penitenciarias, campos de prisioneiros de guerra, campos de concentração. Para realização de tarefas específicas de trabalho; quartéis, navios, escolas internas, campos de trabalho, colônias e grandes mansões, para seus empregados. Para refugiar-se do mundo; abadias, mosteiros, conventos e outros claustros. (pp.16-17).

O autor analisou que na sociedade moderna o individuo tende a realizar atividades diferentes, como dormir e trabalhar, em espaços também diferentes. Porém, nas Instituições Totais, todas as atividades ocorrem no mesmo local e sob a mesma autoridade, ainda, ocorrem em grupo, em horários estabelecidos e com a finalidade de cumprir o plano estabelecido pela instituição. Estas atividades são assim expostas para o internado, os funcionários destas instituições trabalham o ciclo de horas estipuladas e estão integrados ao “mundo externo”. O internado chega à instituição com uma cultura proveniente da família que não é substituída por ela. Mas pode ocorrer, e uma longa estada contribui para isto de forma contundente, de haver uma mudança cultural por parte do internado devido ao afastamento do mundo externo. Mas, desde que chega à Instituição Total, o internado, tem o seu “eu” “mortificado”. Esta mortificação inicia-se com a imposição de barreiras ao mundo externo. A admissão na instituição contribui no processo de mortificação, através desta o internado se integra à instituição e “ao ser enquadrado, o novato, admite ser conformado e codificado num objeto que pode ser colocado na máquina administrativa do estabelecimento” (p.26). Isto se solidifica quando o internado fizer parte da instituição e tiver acesso aos privilégios dela. O momento da admissão pode conter alguma violência como “teste de obediência”. O processo de mortificação do eu também ocorre no confisco de objetos particulares e até do nome. Neste caso o internado é destituído de suas coisas e o que recebe da instituição, como roupas, também pode ser trocado para não permanecerem marcas do eu. Em algumas instituições ainda pode haver desfiguração física do internado; através de agressões, terapias ou cirurgias. Estas práticas remetem os internados a “sentirem que estão num ambiente que não garante sua integridade física” (p.29). A humilhação e exposição dos internados ocorre, assim, para a mortificação do eu e adequação no plano da instituição. Isto pode se dar através de agressões ao corpo, agressões morais ou as duas em conjunto. A conduta do internado deve ser submissa, e mesmo uma demonstração de irritação à humilhação pode ser castigada.

Referência:

GOFFMAN, E. Manicômicos, prisões e conventos. Trad.: Dante Moreira Leite, 7ª Ed., São Paulo, Perspectiva, 2005.

José Augusto Hartmann é filósofo (FACEL) e historiador (UFPR). Este artigo reflete as opiniões do autor. O site não se responsabiliza e nem pode ser responsabilizado pelas informações acima ou por prejuízos de qualquer natureza em decorrência do uso dessas informações.

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