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Cotidiano, Eder Silva

O Drama do Outsider

Há algum tempo eu havia publicado em meu blog www.o-outsider.blogspot.com um breve comentário sobre algumas das características psico-sociais do outsider. Tomo então a ousadia em transcrevê-la para acrescentar alguns conceitos sobre este fenômeno social que, para uns, pode ser definido como “peregrino” ou que, para outros, “forasteiro”.

Na sua peregrinação involuntária, na busca da compreensão dos seus dilemas interiores e na necessidade de se expressar no seu mais puro estado de nitidez existencial, o “outsider” procura meios para inserir-se no “habitat comum” em sua volta. Ele torna-se outsider não por vontade própria, mas por causa de suas convicções não coincidirem com a tradição vigente em sua época.

O que caracteriza o procedimento do outsider é a transitoriedade de seus conceitos, a sua mobilidade na busca do essencial, a quebra das limitações do imaginado e do metafísico, a inquietude contrapondo-se a ordem pré-estabelecida e de caráter autoritário. Ele não consegue se “sujeitar voluntariamente” à uma instituição de poder; há o conflito interior que teima não querer enganar sua percepção, fingindo submissão a algo que não lhe satisfaz a consciência; a necessidade de “ser”, contrariando o esforço do “ter”, contrariando as propostas da predestinação, foge para a busca do “imanentismo” repentino, fragmentário e não sugestionável ao invés de ouvir as vozes que outrora lhe sugeriria a obediência inevitável ao sistema de tradições humanas. Daí sua queda ao “intangível”, fazendo-o perder-se no descontrole inevitável, a imaleabilidade da alma (a peregrinação, a fugacidade em busca da fé como uma exigência de profundas necessidades do íntimo do ser, e não meramente uma graça provinda do sobrenatural como dádiva de mão única).

Entender o outsider é de uma complexidade sem tamanho, é adentrar em um mar revoltoso cujas ondas nos lançam no paradoxo das questões do “imaterial”, da hiperealidade.

E isto é expressado em todas as direções. Não há uma distinção, ocorre nas diversas esferas antropológicas (social, política, religiosa, cultural, etc).

É o “Caminho”, e não o ponto de partida e muito menos a chegada.

Transcrevo aqui a letra de uma canção que bem expressa algumas das características:

Canção Agalopada

Foi um tempo que o tempo não esquece

Que os trovões eram roncos de se ouvir

Todo o céu começou a se abrir

Numa fenda de fogo que aparece

O poeta inicia sua prece

Ponteando em cordas e lamentos

Escrevendo seus novos mandamentos

Na fronteira de um mundo alucinado

Cavalgando em martelo agalopado

E viajando com loucos pensamentos

Sete botas pisaram no telhado

Sete léguas comeram-se assim

Sete quedas de lava e de marfim

Sete copos de sangue derramado

Sete facas de fio amolado

Sete olhos atentos encerrei

Sete vezes eu me ajoelhei

Na presença de um ser iluminado

Como um cego fiquei tão ofuscado

Ante o brilho dos olhos que olhei

Pode ser que ninguém me compreenda
Quando digo que sou visionário

Pode a bíblia ser um dicionário

Pode tudo ser uma refazenda

Mas a mente talvez não me atenda

Se eu quiser novamente retornar

Para o mundo de leis me obrigar

A lutar pelo erro do engano

Eu prefiro um galope soberano
À loucura do mundo me entregar

Eder Silva é turismólogo (UP) e gestor da informação (UFPR). Este artigo reflete as opiniões do autor. O site não se responsabiliza e nem pode ser responsabilizado pelas informações acima ou por prejuízos de qualquer natureza em decorrência do uso dessas informações.

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Sobre Eder Silva

I'm a outsider

Discussão

5 comentários sobre “O Drama do Outsider

  1. As musicas de Zé Ramalho possuem traços ricos de subjetividade sugerindo “hiperealidade” como afirmou. Particularmente considero este cantor brasileiro (ativo) como o melhor para propor reflexões e aproximações sobre o “outsider”.
    Por um período da vida de Zé Ramalho, ele andou junto com Raul Seixas fazendo experimentações de droga na chamada “Ilha do Tóxico” nome dado por eles em suas viagens com aditivos. Então, Zé resolveu parar com o uso de drogas em quanto Raul se afundou nas drogas. Ainda bem que o pós-drogas de Zé Ramalho não mudou a características de suas musicas, mantendo sempre aquele viés misterioso e “outsider”.
    Aproveito também a oportunidade de passar o link daquela musica que te falei (uma das que mais gosto do Zé) que é do estilo “outside” meu amigo. http://www.youtube.com/watch?v=DOc74FNeJFY
    Abraços Eli

    Publicado por Eli Cordeiro Junior | 6 de junho de 2012, 1:13 pm
    • Valew amigo Eli. Agora sim pude escutar a referida música do Zé Ramalho. Acredito que hoje as reflexões contidas em nas letras dele são mais ressoantes e contextualizadas à realidade humana. É como o bom vinho envelhecido, amigo (risos).
      Abraços e até o próximo capítulo do outsider. Vamos ver se o amigo Nailon nos agracia com mais um artigo.

      Publicado por Eder Silva | 6 de junho de 2012, 5:36 pm
  2. hein meus caros, ainda não conhecia o termo ‘outsider’… mas agora, constatei que sempre fui um outsider por natureza… Viva! Viva! Viva a Sociedade Outsider!!!

    Publicado por anovamente | 8 de agosto de 2012, 8:59 pm
  3. Agora pude compreender o significado de “Outsider”, muito bom ! E ja elogiando esse ótimo video, combina muito bem com o termo e a analogia.

    Publicado por Bruno Araujo | 13 de setembro de 2012, 1:04 am
    • Prezado Bruno, o Outsider sempre esteve “out”serido (contrário de inserido) na Matrix. Ele já havia mesmo antes de tudo. É o espírito visionário que sempre esteve inserido nos remanescentes, naqueles que não se contentavam em ver o que lhes era imposto sutilmente por um sistema humanamente corroente e corrosivo. Tem mais algumas coisas que escrevi nesses endereços: http://www.sociologiapoliticaufpr.wordpress.com ou http://www.o-outsider.blogspot.com. Há outsider em diversas áreas (ciência, religião, política, literatura, artes, cotidiano em geral). Abraços fraternos. Eder

      Publicado por Eder Silva | 13 de setembro de 2012, 9:04 am

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