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Educação, Vinícius Armiliato

Recomendações a outro menino que queria estudar Michel Foucault

Caríssimo Lucas Baccin,

É com muito entusiasmo que venho acompanhando as suas reflexões sobre as dissociações entre as homilias teóricas da academia e as práticas que essa mesma academia nos impele a exercer.

Você comentou comigo que tem encontrado alguns professores que travam uma guerra entre eles, para ver quem produz mais, quem lê mais, quem recebe mais convites para palestrar por aí. Pois bem, e na guerra pela produtividade, pois isso conta pontos na carreira, nós temos uma nova versão da educação bancária de Paulo Freire.

Além de existirem modalidades de professores que depositam “conhecimento” na cabeça dos alunos, que o nosso conhecido Paulo Freire fez questão de apontar ao mundo, temos agora um novo paradigma econômico da educação bancária. Esse paradigma não está necessariamente na relação professor-aluno, mas nas relações que os professores travam entre eles próprios: os artigos científicos, as comunicações em eventos, os resumos expandidos publicados em anais de congressos, os pôsteres, os grupos de pesquisa cadastrados no CNPq, passaram a ser valorados como dinheiro, ou de forma mais lúdica, como nas brincadeiras de criança, que usam folhas de árvore para valerem dinheirinho e brincar de comércio e lojinha, para ver que é mais rico, os professores tem se submetido a essa mesma lógica, só que com folhas de papel, e não folhas de árvores.

Quem tem a menor barrinha de rolagem no currículo Lattes é mais inteligente do que quem tem a barrinha maior. Quando se precisa fazer uma seleção para um concurso público, doutorado, mestrado, etc., cada artiguinho, resuminho, comunicaçãozinha, tem um valorzinho diferente. Dependendo do lugar, um artigo vale mais dinheirinho do que um capítulo de livrinho. Mas o mais importante é que todos os professores precisam entrar nessa lógica do capitalzinho, como numa brincadeirinha de criança.

Mas, meu caro Luquinha, sabe qual é a diferença entre as crianças e os professores? Se você pedir para uma criança, o que ela está fazendo, a maioria delas vai te responder que estão brincando de faz-de-conta e que as folinhas de árvore representam um dinheiro, e que não dá pra comprar nada com elas. Porém, se você pedir para os professores o que eles estão fazendo com um acúmulo de tantas folinhas, a maioria deles vai dizer que elas representam o seu saber acumulado e demonstram as coisas que ele se interessa e pesquisou nos últimos tempos de sua vida intelectual, e que essas folinhas valem muito e que cada artiginho, resuminho, capitulozinho de livrinho representa o que eles sabem.

Mas atenção, Luquinha!

É a maioria dos professores, não todos!

Aproveite aqueles que sabem brincar e não levam as coisas muito a sério…

Vinícius Armiliato é psicólogo clínico (PUC-PR), artista (FAP) e mestrando em Filosofia (PUC-PR). Este artigo reflete as opiniões do autor. O site não se responsabiliza e nem pode ser responsabilizado pelas informações acima ou por prejuízos de qualquer natureza em decorrência do uso dessas informações.

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Discussão

10 comentários sobre “Recomendações a outro menino que queria estudar Michel Foucault

  1. Excelente crítica, colega Vinicius. Mais uma vez, friza-se que nem sempre “as idéias correspondem aos fatos”. É uma pena que o saber está se transformando em capital de negócios… Enquanto isso, na sala de justiça…
    Abraços, mano.

    Eder.

    Publicado por Eder Silva | 4 de junho de 2012, 9:11 pm
    • Sim, tudo o que se pode se transforma em capital. Fora da academia, o que se tem capitalizado em demasia, é o sustentável, ecologicamente correto e essas coisas todas…
      Ecologia não se traduz em moeda…

      Publicado por viniciusarmiliato | 10 de junho de 2012, 11:22 pm
  2. Infelizmente nos deparamos na academia com o que tanto queríamos fugir na escola, como disse um professor meu, “A Universidade com U maiúsculo é, assim como a escola, uma instituição falida, conservadora, retrógrada; um lugar de potencialização do individualismo e das neuroses pós-modernas, mas como tu bem citou Paulo Freire, devemos buscar o diferente, mesmo que não façamos uma drástica mudança, mas se não formos nós, não será ninguém. Abraço, e como sempre, ótimo texto.

    Lucas C. Baccin

    Publicado por Lucas Baccin | 4 de junho de 2012, 11:32 pm
    • Sim, Lucas. Estou pensando inclusive em fundar uma universidade com u minúsculo, sem tantas preocupações engessadas.
      Vamos trabalhar aos pouquinhos pra declarar a falência e propor novas possibilidades para a universidade. Se ela é enlaçada pelas neuroses pós-modernas, vamos clinicá-la aqui no blog, e em nossos ativismos locais (cada um, dentro de sua sala de aula, na sua universidade com u maiúsculo)
      Boa semana!.

      Publicado por viniciusarmiliato | 10 de junho de 2012, 11:27 pm
  3. Caríssimo Vinícius! Muito pertinente sua reflexão! Falando enquanto professor, vou dizer que tenho colegas de trabalho muito preocupados com sua produção científica (será que a denominação tem haver com o propósito?). A coisa esta bem mercantilizada na acadêmia: se não publicar, não aprova projetos, não se credencia como docente de pós-graduação, não pode será bolsista produtividade do CNPq (é isso aí, tem dimdim pra quem aprendeu a brincar direitinho…), não é convidado pra palestra, bla bla bla… e o fator H vai ficando nanométrico.

    Quanto tempo será que precisa para se criar algo realmente originam e (o mais importante!) ÚTIL?? Alguns acreditam que quanto mais fizerem, maior será a chance de sair algo que preste…. (para que isso não pareça um pouco ridículo do ponto de vista acadêmico, vamos chamar tal idéia de probabilistica…. o que é aceitável se você ainda não leu um livrinho de nome “Como mentir com estatística”…). Uma Universidade para quê e para quem são as perguntas que precisamos fazer.
    Um forte abraço Vini

    Publicado por Joni | 7 de junho de 2012, 5:33 pm
    • Sim, Joni. Precisamos continuar fazendo essas perguntas, uma universidade para quê e para quem. Segunda-feira, dia 11/06/2012 vai sair um texto no blog, refletindo sobre a universidade “para quem”.
      Mas ainda temos muito a pensar no “para que”. A mercantilização das coisas tem dificultado discussões, pois muitas vezes temos que manter pontos de vista para justificar escolhas antigas e que mantém determinados projetos de pesquisa financiados. Te convido a publicar um texto aqui no blog a partir das reflexões que você escreveu no comentário, esmiuçando-as. Publico todas as segundas-feiras, e quando quiser, o espaço está aberto!
      Boa semana.

      Publicado por viniciusarmiliato | 10 de junho de 2012, 11:42 pm
  4. Carta aos Reitores das Universidades Européias
    Senhores Reitores,
    Na estreita cisterna que os Srs. chamam de “Pensamento”, os raios espirituais apodrecem como palha.
    Chega de jogos da linguagem, de artifícios da sintaxe, de prestidigitações com fórmulas, agora é preciso encontrar a grande Lei do coração, a Lei que não seja uma lei, uma prisão, mas um guia para o Espírito perdido no seu próprio labirinto. Além daquilo que a ciência jamais conseguirá alcançar, lá onde os feixes da razão se partem contra as nuvens, existe esse labirinto, núcleo central para o qual convergem todas as forças do ser, as nervuras últimas do Espírito. Nesse dédalo de muralhas móveis e sempre removidas, fora de todas as formas conhecidas do pensamento, nosso Espírito se agita, espreitando seus movimentos mais secretos e espontâneos, aqueles com um caráter de revelação,essa ária vinda de longe, caída do céu.
    Mas a raça dos profetas extinguiu-se. A Europa cristaliza-se, mumifica-se lentamente sob as ataduras das suas fronteiras, das suas fábricas, dos seus tribunais, das suas universidades. O Espírito congelado racha entre lâminas minerais que se estreitam ao seu redor. A culpa é dos vossos sistemas embolorados, vossa lógica de 2 mais 2 fazem 4; a culpa é vossa, Reitores presos no laço dos silogismos. Os Srs. fabricam engenheiros, magistrados, médicos aos quais escapam os verdadeiros mistérios do corpo, as leis cósmicas do ser, falsos sábios, cegos para o além-terra, filósofos com a pretensão de reconstituir o Espírito. O menor ato de criação espontânea e um mundo mais complexo e revelador que qualquer metafísica.
    Deixem-nos pois, os Senhores nada mais são que usurpadores. Com que direito pretendem canalizar a inteligência, dar diplomas ao Espírito?
    Os Senhores nada sabem do Espírito, ignoram suas ramificações mais ocultas e essenciais, essas pegadas fósseis tão próximas das nossas próprias origens, rastros que às vezes conseguimos reconstituir sobre as mais obscuras jazidas dos nossos cérebros.
    Em nome da vossa própria lógica, voz dizemos: a vida fede, Senhores. Olhem para seus rostos, considerem seus produtos. Pelo crivo dos vossos diplomas passa uma juventude abatida, perdida. Os Senhores são a chaga do mundo e tanto melhor para o mundo, mas que ele se acredite um pouco menos à frente da humanidade.
    A. Artaud

    Publicado por Kysy Amarante Fischer | 21 de junho de 2012, 4:40 pm

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