//
você está lendo...
José Augusto Hartmann, Política e Sociedade

O patrimonialismo brasileiro

Publicada pelo jornal Gazeta do Povo uma série de reportagens mostrando o uso de veículos oficiais das polícias civil e militar para fins particulares reascendeu-se o problema da (não-) separação do público e do privado no Brasil e do patrimonialismo (acesse aqui). Contudo, não de hoje são notórias as práticas patrimonialistas no Estado brasileiro. No Paraná, só para citar os dois últimos governos, o nepotismo foi regra. O último governador foi duramente questionado por empregar seus irmãos nas Secretarias e Superintendências, inclusive indicando um deles para o Tribunal de Contas. O atual, não se contenta em indicar irmãos (e esposa) secretários, mas ainda mantém sólidos acordos com seu antigo vice-Prefeito, e atual Prefeito de Curitiba, para alicerçar a carreira política de seu filho, indicando-o para uma Secretaria Municipal, sem ao menos ter tido outro cargo público.

Tentando entender a identidade brasileira vários sociólogos, historiadores, filósofos e tantos outros profissionais realizaram profundas pesquisas e propuseram considerações sólidas. Entretanto, entre as propostas, uma análise é especialmente… esclarecedora? Num clássico capítulo de Raízes do Brasil, Sérgio Buarque de Holanda propõe o caráter cordial do brasileiro. Tal cordialidade não seria a gentileza ou o respeito mútuo entre os concidadãos de uma nação, mas uma ética em que prevalece “o tipo primitivo da família patriarcal” (p.145).

Desse modo, dois modelos são verificados. No primeiro, construído nas sociedades modernas, o valor da impessoalidade, da valorização do indivíduo, enquanto cidadão com direitos, e deveres, iguais, mas que compete visando uma boa posição social, não conseguiu se formar nestas terras. Na Modernidade, a competição entre os indivíduos tornou-se um valor fundamental. Constituiu-se um “valor social positivo” (p.145) que organiza as relações pela igualdade de direitos e pela impessoalidade. O segundo modo, pelo contrário, confunde os espaços público e privado. Os interesses do Estado são confundidos com interesses particulares (patrimonialismo). A lógica da pessoalidade, do interesse pessoal e familiar se impõe. O preenchimento dos cargos públicos ocorre por confiança e não qualificação. No Brasil seria esse segundo modo o mais comum. Sua base relacional está no sangue, no parentesco. Essas são as relações do “homem cordial”.

A confusão dos espaços público e privado pode ser entendida como um resquício do Antigo Regime, predominante naquelas sociedades em que não se completou um processo de modernização. Fica a questão. Estaria correto Sérgio Buarque? Seria o patriarcalismo, instituído em nossas raízes, responsável por essa prática tão comum entre nós?

Referência:

HOLANDA, Sérgio Buarque de. O Homem Cordial. In: Raízes do Brasil. São Paulo. Companhia das Letras, 1995. pp. 139 – 151.

José Augusto Hartmann é filósofo (FACEL) e historiador (UFPR). Este artigo reflete as opiniões do autor. O site não se responsabiliza e nem pode ser responsabilizado pelas informações acima ou por prejuízos de qualquer natureza em decorrência do uso dessas informações.

Anúncios

Discussão

2 comentários sobre “O patrimonialismo brasileiro

  1. São oportunas as reflexões do colega José Augusto Hartmann, no artigo O Patrimonialismo Brasileiro, contextualizando matéria publicada no Jornal Gazeta do Povo. Porém, caro José Augusto entendo que este tal patrimonialismo a que você se refere é uma nova modalidade de corrupção na política nacional, que deve ser veemente combatida, pois é extremamente nociva à sociedade brasileira. E neste contexto, a parte saudável da imprensa deve sim continuar denunciando o nepotismo, empreguismo de cabide/ cargo em comissão, benesses do patrimônio público para uso de interesse pessoal, corrupção nas licitações e principalmente atos de patrimonialismo familiar. Só assim, acredito, irá melhorar a credibilidade dos políticos de todas as esferas. Caso contrário, opção será cadeia aos envolvidos, perda do mandato e devolução do dinheiro roubado dos cofres públicos.
    Carlos Evangelista é jornalista DRT-PR 8847 e pós graduado em sociologia política

    Publicado por Luiz Carlos Evangelista | 6 de junho de 2012, 1:32 pm
  2. Pois é Carlos, ainda creio que a melhor forma de combater essas práticas é o conhecimento sobre a política e o voto consciente. Muitas dessas práticas não podem ser consideradas crime, então só nos resta não eleger aqueles que adotam atitudes contrárias ao interesse público. Para isso o papel da imprensa é fundamental.

    Publicado por joseaugustohartmann | 6 de junho de 2012, 1:46 pm

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: