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Cotidiano, Vinícius Armiliato

Um sonho preciso

Era uma cidade. E no sonho eu estava incomodado. Incomodado porque o tempo todo as pessoas usavam frases que, no sonho, me incomodavam. Em geral as frases tinham o mesmo sentido. Imagino que esse incômodo com a repetição de modelos de frases fazia eu me contorcer na cama. Mudavam apenas os objetos dos seus conteúdos, mas, como nos sonhos tem essas coisas, esses objetos eram pra mim uma coisa só, condensados!

Alguns exemplos das frases que eu ainda lembro:

— Eu preciso de um celular com dois chips;

— Vou mudar o plano do meu celular porque eu preciso de mais praticidade;

— Eu preciso de uma máquina de fazer pão caseiro, com timer;

— Comprei, porque precisava;

— Tem um livro que saiu… Bestseller! Eu preciso ler!

— Preciso da TV a cabo para ver a série que eu preciso. Eu preciso me sentir no cinema: por isso escolhi essa TV de PLASMA com 470 bilhões de pixels e 270 milhões de polegadas. A TV digital é perfeita. HD! Não dá mais para continuar sem. Eu preciso;

— Eu preciso de conforto e bem estar para assistir TV, vou comprar um sofá;

(em voz baixa) Eu preciso ter uma opinião sobre isso que tá acontecendo na política. Vou aproveitar que estou aqui na fila, e decorar o que diz na capa dessa revista.

— Preciso de um chocolate depois do almoço;

— Preciso de uma roupa nova para o trabalho;

A convicção era tanta que parecia que, se satisfeitas essas vontades, elas ficariam o resto dos seus dias curtindo o objeto que desejavam.

Esta precisão nas frases me impressionava. Era como se, realizados os desejos,  um arqueiro acertasse com toda a precisão o centro de um alvo. Sempre que eu as ouvia, vinha essa sensação, ou imagem.

Foi um sonho bem elaborado pelo meu inconsciente. Pois havia um mecanismo nessa cidade, que garantia que as pessoas não ficassem de fato na frente de seus objetos de desejo após consegui-los.

O mecanismo evitava que, quando um habitante comprava uma TV, por exemplo, não ficasse ensimesmado na frente de seu aparelho novo ligado, que tanto disse que precisava. Na verdade, esse mecanismo consistia em disponibilizar para as pessoas sempre alguma coisa mais interessante para ser precisada. Existia uma constelação de coisas, que eram objetos, programas de tevê, atividades de lazer, atividades para ser saudável, serviços para serem utilizados, maneiras de se comportar, livros para ler, teorias para optar, opiniões para se ter, enfim, existia um número infinito de coisas para que as pessoas precisassem! Sempre novos objetos surgiam para serem necessitados. As pessoas sempre estavam trabalhando, se debruçando em conquistar outras coisas, como um plano combo de TV por assinatura/celular/telefone fixo/banda larga, ou um secador de cabelo…

Se tirassem o celular (ou TV a cabo, secador de cabelo, o bestseller, a opinião da revista da fila do mercado, etc.,) dessas pessoas, o argumento delas era que precisavam desses objetos.

Como era um sonho, algo inesperado aconteceu, parecendo ser ironia do destino: com base em cálculos astronômicos e artefatos de povos antigos, em sítios arqueológicos, cientistas concluíram, cientificamente, o dia, a hora e o minuto do fim do mundo, com a chegada de seres que vivem em outro planeta, em alguns meses. Através de consignas muito difíceis e de cálculos matemáticos, em um contato interplanetário, os cientistas conseguiram antecipar o que esses seres de outro lugar do universo fariam aqui e, segundo os cientistas, as pessoas não suportariam o que iria acontecer.

Esse ser, de outro lugar do universo, pousaria aqui e tomaria todos os objetos e atividades que as pessoas precisavam. Ninguém poderia usufruir de seu celular, de seu lazer, de seu equipamento-comprado-pela-TV-para-melhorar-o-condicionamento-físico.

Eu pisquei os olhos, no meu sonho, e vi a confusão.Todos corriam pelas ruas desesperados, invocando santos, procurando gurus, lendo os textos sagrados. As pessoas começaram a trabalhar mais para ter imediatamente mais objetos. Teóricos começaram a construir teorias mirabolantes sobre as necessidades, sobre os valores do homem, sobre o que move os sujeitos, o que constitui suas identidades, qual deve ser o papel do Estado nos valores de mercado e da família, porque é preciso ter ou não ter certas coisas. As teorias eram como a linguagem dos sonhos: partiam de lugares absurdos para chegar em outros mais estranhos, relacionando significados que aparentemente não tinham nada a significar.

Chegou o dia, a hora e o minuto. Com precisão, esses seres alienígenas desceram e, em  talvez menos de meio segundo, tudo o que as pessoas precisavam foi confiscado e desapareceu.

Percebi que estava acordando! Me concentrei para continuar dormindo e ver afinal, o que ia acontecer com aquelas pessoas que tanto precisavam daquelas coisas.

Para minha surpresa, o que aconteceu?

[    ]

Vinícius Armiliato é psicólogo clínico (PUC-PR), artista (FAP) e mestrando em Filosofia (PUC-PR). Este artigo reflete as opiniões do autor. O site não se responsabiliza e nem pode ser responsabilizado pelas informações acima ou por prejuízos de qualquer natureza em decorrência do uso dessas informações.

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Discussão

4 comentários sobre “Um sonho preciso

  1. Não sei o que aconteceu, mas triste realidade perturba as consciências com o rumo que caminha a valorização do que de fato é fundamental para uma vida pautada em valores reais. Valores? O que serão? Será o celular de ultima geração, a TV nova…a resposta é subjetiva a ponto de que seja positivamente pelo superficial mesmo…

    Publicado por Lucimar dos Reis de Amorim | 28 de maio de 2012, 1:55 pm
  2. Vinícius! Isso realmente foi um sonho? Tem informações muito precisas nele. Nos últimos quatro anos li autores que escrevem sobre essa condição dos humanos. E temos também muitos filmes já sobre isso.

    Publicado por Lauro Borges | 5 de junho de 2012, 2:50 pm
    • Lauro, compartilhe-os conosco! Assim podemos enriquecer de detalhes esse sonho.
      Sim, realmente foi um sonho, só que eu estava acordado, andando pelo calçadão… de repente eu tinha andado quadras e quadras e não havia me dado conta.
      Boa semana!

      Publicado por viniciusarmiliato | 10 de junho de 2012, 11:34 pm

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