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Educação, Vinícius Armiliato

Os ratos e a Análise Experimental do Comportamento

Os cursos de graduação em Psicologia, tradicionalmente oferecem uma disciplina chamada Análise Experimental do Comportamento (AEC). Trata-se de uma psicologia experimental, que se dedica a estudar o comportamento, baseada dos princípios de Skinner, com relação ao behaviorismo radical. O que mais chama a atenção nessa disciplina e que desperta a ansiedade dos alunos para cursá-la? O uso de animais, mais especificamente, ratos albinos da linhagem Wistar.

A minha questão é: deveríamos ainda utilizar animais para fazer a disciplina de Análise Experimental do Comportamento, nos cursos de Psicologia? Sem delongas, penso que não.

Um dos problemas na utilização de ratos, por exemplo, é a dessensibilização dos alunos. Facilmente se dessensibilizam com o estudo das linhas teóricas, encontrando nas pessoas correspondentes dos conceitos que aprenderam nas aulas. “Olha, ela recalcou”, “Olha, o arquétipo feminino se mostrando”, “Olha esse comportamento de esquiva”, “Olha, que Superego impositivo”. Facilmente, só com aulas teóricas, formam-se profissionais que encontram conceitos nas pessoas e não o que deveriam encontrar: as próprias pessoas.

No caso da Análise Experimental do Comportamento, as aulas práticas, com os ratos, são mais um reforço para estender a relação de dominador => dominado, pesquisador => pesquisado.

E ainda, isso é muito grave, em se falando de um curso de Psicologia, que de maneira ideal, trabalha unicamente com a relação: relação terapeuta => paciente; empregador => empregado; professor=> aluno, etc e etc. Em cada campo da Psicologia nos deparamos com relação. É um erro nos considerarmos aptos para manipular o comportamento de um ser vivo para fins didáticos se, sabendo que os mesmos experimentos já foram realizados, tornamos a produzir mais animais para obter, nas aulas de AEC, uma resposta que já sabemos. As mesmas experiências são repetidas há décadas e, há décadas, que os alunos/professores se empolgam ao correlacionarem comportamentos de esquiva, fuga, superstição, generalização, de reforço, punição, etc., manifestados pelos ratos dentro da caixa de Skinner, com o comportamento humano. Não é necessário usar animais para prever o que já esperamos ver. Repito o que já postei aqui sobre Nietzsche. Os exemplos com AEC são facilmente identificáveis com a ideia de ciência, de verdade, quando se coloca uma modalidade de reforço escondida atrás do arbusto (ou dentro da caixa de Skinner) para depois, quando andamos na rua, reconhecermos no comportamento dos seres humanos e falarmos: “Oh! Eis uma modalidade de reforço”.

Um dos livros mais usados aqui no Paraná pelos cursos de Psicologia, intitulado Análise Experimental do Comportamento: manual de laboratório,de Paula Gomide e Lidia Weber, aponta o seguinte sobre os experimentos que propõe com os ratos: “As relações entre variáveis ambientais  e comportamentais, aqui demonstradas, constituem relações funcionais estabelecidas, ao longo dos últimos cinquenta anos, por um grupo de pesquisadores que procuram fazer análise experimental do comportamento”. Não pude deixar de grifar o  “cinquenta anos”, que para mim soa como: “Fica tranqüilo, já experimentamos milhares de ratos, e isso nos dá autoridade e segurança para te autorizar e ficar seguro a utilizar outros milhares”

E assim vamos construindo nossa relação com o mundo na faculdade. Assim vamos desenvolvendo a tendência a estender para a nossa prática essa relação de dominação pesquisador => pesquisado.

Para que a Análise Experimental do Comportamento ocorra é preciso ter um bom reforçador. Esse reforçador é a água e conforme o livro acima citado recomenda: “[…] para que a água funcione como um reforçador efetivo, é necessário que o rato esteja privado dela, por ocasião do exercício. Em geral adota-se um período de privação de 24 horas, antes do exercício previsto” (GOMIDE; WEBER, 2003, p. 27).

Será que ninguém nunca teve vontade de deixar as autoras privadas de água por 24 horas e, se elas dissessem desesperadas: “por favor, pare, você já fez isso a semana passada, retrasada, com a minha mãe, vó, com os meus netos e filhos”. Você respondesse: “Mas os alunos aprendem melhor assim, repetindo e vendo, na prática, ao vivo”. Você ainda poderia responder com uma citação das próprias autoras que te suplicam:

“Sem dúvida, é bastante diferente o aluno assistir a uma aula expositiva ou ler um livro a respeito do comportamento de um rato em procedimento de extinção da resposta de pressão à barra, do que ver com seus próprios olhos e fazer parte das contingências dessa situação” (GOMIDE; WEBER, 2003, p. 34)

O problema é: manipular o comportamento dos ratos dá um REFORÇO para nós, pesquisadores, cientistas, psicólogos, graduados e graduandos, estendermos esse caráter de utilização de um outro para fins próprios, enquadrando o rato na descoberta de um achado que, sem ninguém ver, eu escondi. (Post: “Por que os pesquisadores das Ciências Humanas não devem ler Nietzsche? Reflexões a partir de um único exemplo”)

A “fabricação” de animais para a produção de experimentos científicos cíclicos, que em todos os anos as turmas de Psicologia obtem resultados semelhantes, com variações comportamentais previstas, é um profundo desrespeito com animais, criados em laboratório só para um experimento, infelizmente, medíocre.

É uma boa causa criar ratos para repetir experimentos já mensurados, qualificados e publicados em milhares de referências, para depois serem confeccionados relatórios que enquadram resultados com fontes bibliográficas, científicas?

O afã das autoras na didática/aprendizado/retenção de conteúdo proporcionado pelos experimentos, tem uma lógica parecida com a do consumo nos shoppings: ver com os próprios olhos, através da vitrine, as maravilhas da ciência e, depois de divertido passeio, comprar o que mais agrada.

Concordar com esse método didático é concordar com a descartabilidade desses animais, dessas experiências e dos produtos comprados na loja.

Vinícius Armiliato é psicólogo clínico (PUC-PR), artista (FAP) e mestrando em Filosofia (PUC-PR). Este artigo reflete as opiniões do autor. O site não se responsabiliza e nem pode ser responsabilizado pelas informações acima ou por prejuízos de qualquer natureza em decorrência do uso dessas informações.

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Discussão

2 comentários sobre “Os ratos e a Análise Experimental do Comportamento

  1. Gostei demais da sua publicação e compartilho das mesmas idéias, sendo assim pretendo publicar no meu facebook.

    Publicado por Adeline Silva Santos | 19 de junho de 2012, 9:59 pm
    • Obrigado, Adeline.
      Sinta-se à vontade para publicar ou reproduzir o texto!
      Ainda existem muitas coisas para serem discutidas com relação ao uso de animais em experiências…
      Até!

      Publicado por viniciusarmiliato | 20 de junho de 2012, 10:52 am

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