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Educação, Vinícius Armiliato

Anedota do menino que queria estudar Foucault (PARTE 2)

O professor está lá. Deixa uma pilha de ementas sobre sua mesa. A cada aluno que entra, o professor interrompe não só suas anotações no livro de classe, como também seus pensamentos. Fica ansioso com a ideia de que algum aluno possa entrar e ele esquecer de entregar a folha. Assim que nota a sala de aula praticamente lotada, enche os pulmões levantando-se de sua cadeira:

 – (com voz alta) Muito bem alunos, nesse módulo vamos analisar a obra “Vigiar e Punir” de Michel Foucault, especialmente o capítulo que trata do poder disciplinar. Vamos esmiuçar o poder disciplinar… Alguém sabe o que é o poder disciplinar? (não espera a resposta da sala e emenda na próxima fala) Em paralelo vamos analisar alguns cursos do Foucault no Collège de France, nos quais ele trata especificamente desse exercício do poder disciplinar. Nessas palestras vocês poderão notar em que lugares aparece o poder disciplinar. Vocês vão aprender e… (com um leve sorriso e pausadamente) A-PRE-EN-DER como o poder funciona, por onde ele se exerce, e quais as diferenças entre o que é poder para o senso comum e o que é o poder para o próprio Michel Foucault. Eu digo que vocês vão apreender, porque vou aplicar um sistema de trabalhos e provas que vai fazer com que vocês, alunos, estudem diariamente, apreendendo então, os detalhes minuciosos do pensamento de Foucault.

Aliás, em Vigiar e punir, página 126 está escrito que (professor abre o livro) “Esses métodos que permitem controle minucioso das operações do corpo, que realizam a sujeição constante de suas forças e lhes impõem uma relação de docilidade-utilidade, são o que podemos chamar de ‘disciplinas'”. Então, não quero ninguém falando mal da disciplina: seja a disciplina um módulo do curso de vocês, seja um comportamento esperado, a disciplina está aí! E vocês verão como os métodos de avaliação e de fixação de conteúdo os ajudarão, nessa disciplina, tanto a aprender a chegar no horário – e isso que vocês TERÃO que aprender, agora que já estão na faculdade – quanto a aprender o que vocês TEM que aprender sobre Michel Foucault.

Voltando a Foucault, eu diria que a disciplina, objetiva o aumento do domínio de cada um sobre seu próprio corpo. Há uma “coerção” superegóica, eu diria. Vocês mesmos desenvolverão doenças cardíacas, estresse, insônia, ansiedade, porque estarão preocupados, quando forem alguém-na-vida, em cumprir o que as regras da empresa ou escola, lhes farão cumprir. Tem professores, amigos meus, que não dormem a noite se não fazem a chamada, ou se desconfiam que não vigiaram bem a aplicação da prova e por isso algum aluno conseguiu colar, ou se percebem que os alunos estão gazeando a sua aula para ir tomar uma cerveja! (gritando e batendo na mesa) MORRERÃO por que se dedicarão a velar pelos métodos, pelos mecanismos disciplinares das instituições, das quais vocês nem donos são. Página 127 de “Vigiar e Punir”: “A disciplina aumenta as forças do corpo (em termos econômicos de utilidade) e diminui essas mesmas forças (em termos políticos de obediência)”

Eu tenho um conhecido, ele leciona em outra universidade, que, tadinho, diz a seguinte frase: “Não devemos pensar a quem um texto ou autor serve. Temos que pensar na cientificidade. Se for científico, não se tem por que discutir”. (o professor ri) Ele pensa que as pesquisas científicas que elaboraram e continuam a elaborar os mecanismos disciplinares – como as pesquisas que apontam sobre: como deve estar organizada uma sala de aula, como se deve elaborar uma prova, como manter a ordem e o bem estar físico e mental dos alunos… ou no caso da saúde, sobre como tratar eficazmente com remédios psiquiátricos. Voltando, ele pensa que as pesquisas científicas devem ser seguidas, simplesmente por serem feitas por cientistas e serem validadas com métodos eficazes. Ah… e esse meu amigo acha que se a pesquisa vem dos Estados Unidos da América, nem pensar em questioná-las se deve, uma vez que é lá onde mora a ciência mais avançada do mundo! (professor imita o amigo com sarcasmo) “Não devemos pensar a quem um texto serve…” (ri)

(Retoma a postura de professor bruscamente) Na verdade, alunos, as crenças desse meu amigo expressam o mais puro exemplo de poder capilar do qual Foucault se refere. Esse meu amigo não está ganhando dinheiro de pesquisadores dos métodos de educação, ou do governo, ou dos laboratórios farmacêuticos para defendê-los. Ele faz isso porque, como eu disse, tadinho, foi sujeitado pela disciplina, foi sujeitado por mecanismos que constituem a subjetividade e fazem com que pensemos apenas coisas que estão disponíveis na prateleira. Exemplificando banalmente: discutimos se Coca-Cola é melhor que Pepsi ou se a TV Globo é melhor ou pior que a TV Record, mas não discutimos por que essas são as opções oferecidas para o nosso discurso…(professor tem um insight, mas fala em voz baixa para não roubarem sua ideia) O mesmo vale para quando discutimos política!

(Retomando a postura) Quando falamos de poder, pensamos que o poder é algo que um governante ou alguém hierarquicamente superior, como um chefe, exerce sobre alguém hierarquicamente inferior. O poder, segundo Foucault, não é necessariamente vertical, de um indivíduo superior sobre outro inferior, mas sim é capilar, se exerce nos mais simplificados estratos de convivência. O poder não tem um dono. Não é alguém que exerce o poder, mas sim um conjunto de enunciados. São verdades muitas vezes garantidas pela ciência: a ciência não tem subjetividade, não tem dono… tem apenas um conjunto de achados que validam uma verdade sobre uma coisa. Foucault destaca que o poder está submetido a uma economia de discursos da verdade.

O interessante, é que Foucault observa no poder um mecanismo de sujeição. Como eu já disse para vocês, as pessoas começam a trabalhar a favor do poder disciplinar, agindo na extremidade, nas microrrelações, como é o caso de um simples professor, que em uma universidade ou escola de algum canto do mundo, faz chamada, fiscaliza os horários de entrada e saída, controla a participação e desempenho dos alunos através de provas e metodologias disciplinares, elabora documentos nos princípios do Direito, nos quais, não há um dono das regras e normas a serem respeitadas… (Pausa longa. Professor olha para sua mesa e avista as ementas e começa a falar apressada e desesperadamente) Esqueci! Precisamos ver nosso cronograma, ler nossa ementa na aula de hoje, e apresentar para vocês nosso esquema de avaliação. Vamos fazer isso já, para adotarmos um sistema de trabalho e otimizar nossas aulas. (olha para um aluno do fundo) Percebi que você está quase dormindo. Você pode, então, ler em voz alta, as observações sobre a avaliação, que eu vou explicando em seguida, uma a uma (aluno começa a ler).

Vinícius Armiliato é psicólogo clínico (PUC-PR), artista (FAP) e mestrando em Filosofia (PUC-PR). Este artigo reflete as opiniões do autor. O site não se responsabiliza e nem pode ser responsabilizado pelas informações acima ou por prejuízos de qualquer natureza em decorrência do uso dessas informações.

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Discussão

8 comentários sobre “Anedota do menino que queria estudar Foucault (PARTE 2)

  1. Comentei no post anterior e não poderia deixar de também comentar neste: só um sorriso me escapa pelos lábios… gostaria de conhecer esse professor rs… Haverá uma terceira parte?

    Publicado por Eveline | 7 de maio de 2012, 6:24 pm
  2. Boatos de que há uma parte 3 aí… Acho que se a galera quiser, ela aparece aí na semana que vem.. Não sei, palpite.

    Publicado por Kysy Fischer | 7 de maio de 2012, 8:24 pm
  3. Tomara que sim, pois gostei muito das duas postagens hehe

    Publicado por Eveline | 7 de maio de 2012, 10:17 pm

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