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Educação, Vinícius Armiliato

Anedota do menino que queria estudar Michel Foucault (PARTE 1)

Antes de começar a anedota do menino que queria estudar Michel Foucault, coloquei abaixo alguns trechos do livro Vigiar e Punir, de Michel Foucault, especialmente da Parte III: Disciplina, para quem não teve contato com a pesquisa do autor, poder se situar na anedota.

As citações em itálico são documentos citados por Foucault, escritos entre os séculos XVIII e XIX e, o que está em negrito e itálico, são as palavras do próprio Foucault:

No começo do século XIX, serão propostos para a escola mútua horários como o seguinte: 8,45 entrada do monitor; 8,52 chamada do monitor; 8,56 entrada das crianças e oração; 9 horas entrada nos bancos, 9,04 primeira lousa; 9,08 fim do ditado; 9,12 segunda lousa, etc. A extensão progressiva dos assalariados acarreta por seu lado um quadriculamento cerrado do tempo

Se acontecer que os operários cheguem mais tarde que em quarto de hora depois que tocar a campainha…; aquele companheiro que for chamado durante o trabalho e que perder mais de cinco minutos…; aquele que não estiver em seu trabalho na hora precisa…

[…]

O aluno deverá aprender o código dos sinais e atender automaticamente a cada um deles.

Feita a oração, o mestre dará uma pancada de sinal [sinal é um “pequeno aparelho de madeira que os Irmãos das Escolas Cristãs usavam”], olhando a criança que quer mandar ler, lhe fará sinal para começar. Para fazer parar o que está lendo, dará uma pancada de sinal… Para fazer sinal ao que está lendo de se corrigir, quando pronunciou mal uma letra, uma sílaba ou uma palavra, dará duas pancadas sucessivamente e seguidas, Se, após ter corrigido, ele não recomeça na palavra que pronunciou mal, porque leu várias depois dela, o mestre dará três pancadas sucessivamente uma seguida da outra para lhe fazer sinal de recuar de algumas palavras e continuará a fazer esse sinal, até o escolar chegar à sílaba ou à palavra que pronunciou mal.

A escola mútua levará ainda mais longe esse controle dos comportamentos pelo sistema dos sinais a que se tem que reagir imediatamente. Até as ordens verbais devem funcionar como sinalização:

Entrem em seus bancos. À palavra Entrem, as crianças colocam com ruído a mão direita sobre a mesa e ao mesmo tempo passam a perna para dentro do banco; às palavras em seus bancos, eles passam a outra perna e se sentam diante das lousas… Pegar-lousas, à palavra pegar, as crianças levam a mão direita ao barbante que serve para suspender a lousa ao prego que está diante deles, e com a esquerda pegam a lousa pelo meio; à palavra lousas, eles a soltam e a colocam sobre a mesa

[…]

E pelo jogo dessa quantificação, dessa circulação dos adiantamentos e das dívidas, graças ao cálculo permanente das notas a mais ou a menos, os aparelhos disciplinares hierarquizam, numa relação mútua, os “bons” e os “maus” indivíduos. Através dessa microeconomia de uma penalidade perpétua [grifo meu], opera-se uma diferenciação que não é a dos atos, mas dos próprios indivíduos, de sua natureza, de suas virtualidades, de seu nível ou valor. A disciplina, ao sancionar os atos com exatidão, avalia os indivíduos “com verdade”; a penalidade que ela põe em execução se integra no ciclo de conhecimento dos indivíduos.

Depois dessa leitura de Foucault, vou contar a anedota do menino que queria estudar Michel Foucault, que começa hoje e termina no meu post da semana que vem:

Lá pelos idos dos anos 2000, um menino, que não era mais tão menino, depois de ter sido submetido a todas as prescrições e códigos de conduta que sua escola ofereceu, vai para a faculdade, justamente para estudar os códigos e as prescrições das instituições escolares. Posso garantir que o menino, só conseguiu cumprir os anos necessários do ensino escolar, que são requisitos para adentrar na Universidade, porque soube muito bem tirar boas notas, fazer as tarefas, chegar no horário, respeitar o professor, amar os conteúdos que lhe são passados, enfim, ser disciplinado.

Agora ele terá alguns anos para estudar as regras às quais foi submetido. Ele entrou na universidade já pensando em sua monografia! Ele imagina que vai poder denunciar todas as coerções, humilhações, classificações, massificações, as quais acredita serem de séculos passados. Ele crê que encontrará professores capazes de lhe orientar em suas pesquisas acadêmicas sobre o sistema disciplinar, que acredita copiosamente ter sido vítima.

Ele pretende ao final desse processo obter um título, um grau, um papel que o diplome!

As aulas começam na segunda-feira, às 7h30 da manhã. Chega pontualmente, ansioso, e recebe o seguinte anexo à ementa:

Se ele souber respeitar os horários, datas, avaliações, leituras, saberes, posturas, procedimentos, estados mentais e físicos, quem sabe poderá estudar os horários, datas, avaliações, leituras, saberes, posturas, procedimentos, estados mentais e físicos… dos séculos passados.

Vinícius Armiliato é psicólogo clínico (PUC-PR), artista (FAP) e mestrando em Filosofia (PUC-PR). Este artigo reflete as opiniões do autor. O site não se responsabiliza e nem pode ser responsabilizado pelas informações acima ou por prejuízos de qualquer natureza em decorrência do uso dessas informações.

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Discussão

Um comentário sobre “Anedota do menino que queria estudar Michel Foucault (PARTE 1)

  1. Fantástico! Não poderia encontrar texto melhor para descrever aquele que quer estudar/estuda Foucault. Também sou mestranda e estudo Foucault e frequentemente me pego pensando em como podem querer que eu entenda esse filósofo, mesmo que uma pequena parte do pensamento dele, em apenas 24 meses, a ponto até de fazer uma análise de entrevistas (coisa que o próprio nunca fez, ou teve tempo de fazer…) com base no que ele escreveu em seus últimos anos…………….

    Publicado por Eveline | 7 de maio de 2012, 6:17 pm

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