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Cotidiano, Eder Silva

Cristo de Madeira

Em algumas ocasiões quando adentro algum templo de oração, me deparo com esta frase: “Bem vindos à casa de Deus”. Não consigo concordar com esta frase. Arrisco-me aqui a interpretar que este vive um cristianismo de madeira ou de concreto; que só encontra a amizade, a paz, a generosidade aos sábados e domingos à noite. Não consegue enxergar que a morada de Deus é no seu dia a dia, na sua alma, habitat perfeito e incorruptível construído por Jesus Cristo há dois séculos.
Vive-se nos templos uma contextualização cronicamente inviável ao cristianismo bíblico. Diga-se de passagem, muito se clama lá dos nossos púlpitos frases sepulcrais vindas do mais profundo, do sarcófago de nossas almas, clamando, “sentados na praça: Nós vos tocamos flauta, e não dançastes; entoamos lamentações, e não chorastes…” (Lc 7:32).

Imagino: que bons tempos aqueles que ainda se dizia: “Voz do que clama no deserto”, pois hoje, nem mesmo aquele que se dizia ter o espírito do profeta Elias seria ouvido por muitos dos que se assentam nesses lugares.

Há uma sociedade cansada de ser dominada por governos corruptos, mal intencionados; por sistemas de crenças que só fazem acrescentar dor, pânico, repreensão, humilhação e menosprezo…e, se não bastasse isso, ainda acrescentados a esses ingredientes, uma pitadinha de auto-afirmação de benevolência, enchendo de fábulas a consciência já entorpecida dos que os aplaudem, iludidos em suas vãs esperanças.

Não só me refiro à corrupção por parte daqueles que roubam o dinheiro para o benefício próprio, mas àqueles que, com cinismo disfarçado de “justiça divina” roubam o tempo das pessoas que, com boa intenção nos corações, vão em busca de algo que lhes traga um refrigério na alma; mas são enganadas, mentalmente corrompidas.

Se nos intitulamos “espirituais”, porque ficamos a divagar sobre “picuinhas”, tentando transformar todos em mercadoria barata? Se realmente acreditamos que somos cristãos, porque não alimentamos um pouco do corpo, muito da alma e muitíssimo das coisas lá do alto? Porque permanecermos então num dilema agostiniano, tentando massacrar a alma, oferecendo sacrifícios tolos, de modo a adiar a sublimação da existência, torturando o coração e os sentimentos, enganando a própria consciência, crendo que o verdadeiro prazer consiste em torturar a alma? Onde será que chegaremos com tamanha demagogia?

Enquanto que nas praças desfilam o infortúnio das almas penadas, de espíritos impotentes, vivendo a embriaguez da razão, do sentimento; seres que já não mais buscam respostas, já desperdiçaram o último fôlego da esperança, apenas vivem as intempéries do dia a dia. Enquanto que as instituições ostentam a sua “onipotência”, seu discurso de pseudo-justiça, onde a fidelidade a Deus se baseia na construção de mais uma torre de Babel, de modo a erguer um estandarte absurdo da verticalidade egoísta, baseada no embrutecimento do sentimento de misericórdia aos fracos, aos menores, aos vagantes solitários… Pergunto: onde se escondeu a justiça dos santos? Onde queremos chegar com tamanha hipocrisia? Será mesmo necessária a força da persuasão para rasgarmos o véu que encobre nossa percepção da graça do Cristo Vivo? Será então necessário pregarmos palavras intangíveis aos quatro ventos, numa “sociedade do espetáculo”, como diria Guy Debord? Faltam-nos apenas a resposta! Quem realmente somos? Quem seremos então neste espetáculo das vaidades desumanas? Somos mais felizes que aqueles que viveram tempos antigos, sem tecnologia, sem impressionantes adereços, sem requintes?

Derrubam-se os altares, instituem-se então os púlpitos (arquitetônica visibilidade). Adora-se o Grande discurso do demagogo; esforça-se para comprar o bilhete do Grande Espetáculo, o espetáculo do sucesso que apregoa o domínio de homens para com outros homens, vivendo enchafurdados numa viciosa demagogia que o “penso logo existo” já não existe mais, transferindo-se para o sinto, logo existo; intoxicando a razão, roubando a essência do senso de solidariedade da raça, transformando-nos em protótipos de “big Brothers” (não o da Rede Globo, mas o de George Orwell).

Este espírito dos nossos tempos é realmente perspicaz e astuto. Será que venceremos as ilusões de nossas consciências? Até quando nos sentiremos seguros em nosso próprio mundo egocêntrico e mesquinho? Até onde gostaríamos de chegar nas nossas débeis e vãs construções de vanglórias?  Até quando ficaremos desenhando inimigos imaginários, sem saber que o inimigo, nas muitas vezes, somos nós próprios? Realmente é hora de descermos um pouco, de não mais propagarmos a uniformidade, mas sim o respeito; de não mais julgarmos a humanidade, mas sim as nossas próprias misérias, nosso sacrifício sem lógica, sem consciência. Deus não se deixa enganar, ele conhece todos os pormenores dos nossos sentimentos. Enquanto se propaga um clamor pelo avivamento, eu aqui clamo pelo despertamento! A nossa fala que não se traduz em ação, empobrece-nos em todos os sentidos. Acordemos do nosso transe voluntário; enxergar o próximo não como um instinto judaizante e exclusivista, mas sentir as diferenças, amar a essência de cada ser, sairmos desse baile à fantasia, tirarmos a máscara de nosso partidarismo astuto, abdicarmos de nossa guerra santa, descermos para ver o que há no subsolo desta torre de vigia que construímos para fantasiar a falsa segurança de nossas parcas precauções.

Martin Luther King Jr., pastor batista, ícone de uma geração, assim refletiu: “Em decepção profunda, chorei pela frouxidão da igreja. Houve um tempo em que a igreja era bastante poderosa – no tempo em que os primeiros cristãos regozijavam-se por ser considerados dignos de ter sofrido por aquilo em que acreditavam. Naqueles dias, a igreja não era apenas um termômetro que registrava as idéias e princípios da opinião pública; era um termostato que transformava os costumes da sociedade. Quando os primeiros cristãos entravam em uma cidade, as pessoas no poder ficavam transtornadas e imediatamente buscavam condenar os cristãos por serem “perturbadores da paz” e “forasteiros agitadores” (por forasteiros entendam “outsiders” – grifo meu). Mas os cristãos prosseguiam, com a convicção de que eram “uma colônia do céu”, que devia obediência a Deus e não ao homem. Pequenos em número, eram grandes em compromisso. Eles eram intoxicados demais por Deus para serem “astronomicamente intimidados”. Com seu esforço e exemplo, puseram um fim em maldades antigas como o infanticídio e duelos de gladiadores. As coisas são diferentes agora. Com tanta frequência a igreja contemporânea é uma voz fraca, ineficaz com um som incerto. Com tanta frequência é uma arquidefensora do status quo. Longe de se sentir transtornada pela presença da igreja, a estrutura do poder da comunidade normal é confortada pela sanção silenciosa – e com frequência sonora – da igreja das coisas tais como são. Mas o julgamento de Deus pesa sobre a igreja como nunca pesou. Se a igreja atual não recuperar o espírito de sacrifício da igreja primitiva, perderá sua autenticidade, será privada da lealdade de milhões e será descartada como um clube social irrelevante com nenhum significado…

Trechos da *Carta de uma prisão em Birmingham*

E, no fim das constas, a mesma velha indagação voltará à tona: Será que existe alguma dignidade no pó e nas cinzas?

Precisamos urgentemente tirar esse sorriso amarelo de nossos rostos, voltarmos ao mundo real, encurtarmos a distância de uma consciência de nossas fraquezas e ouvir o que o Espírito diz à igreja (…)

Tudo isso porque “… virá tempo em que não suportarão a sã doutrina; mas, tendo grande desejo de ouvir coisas agradáveis, ajuntarão para si mestres segundo os seus próprios desejos, e não só desviarão os ouvidos da verdade, mas se voltarão às fábulas“. (2 Timóteo 4.4).

Eder Silva é turismólogo (UP) e gestor da informação (UFPR). Este artigo reflete as opiniões do autor. O site não se responsabiliza e nem pode ser responsabilizado pelas informações acima ou por prejuízos de qualquer natureza em decorrência do uso dessas informações.

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Discussão

Um comentário sobre “Cristo de Madeira

  1. que beleza, meu caro amigo… que verdadeiro e profético, digo, poético e cristãO!!! a cada dia descubro ou redescubro, irmãos de alma neste lugar virtualmente real! Somos O Que Somos… Somos Nós Mesmos… Eu Sou Quem Eu Sou… Somos Cristãos…

    Publicado por anovamente | 23 de agosto de 2012, 12:59 pm

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