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Estudos de Gênero, Vinícius Armiliato

Políticas de Gênero, Laerte e a Heterossexualidade Compulsória: Post para heterossexuais pensarem as questões de gênero

Há algumas semanas, assisti pelo Youtube uma entrevista do Laerte no programa Rodaviva e fiquei muito entusiasmado para escrever este post. Mas não para discutir o Laerte e os trajes femininos que ele vem usando, e sim sobre a banca/mesa/balcão que o entrevistou. O que me chamou a atenção foi a postura dos seus colegas, que o entrevistaram.

Aparentemente nada de exótico na postura deles, assim como aparentemente, não é exótica a postura de um homem conversando com outro no vestiário, sobre o exercício da sexualidade, depois do jogo de futebol da semana com os amigos heterossexuais.

A mim parece que os jornalistas pretendem descobrir uma boa causa ou elaborar e entender o que é “aquele cara, que trabalhou comigo, por tantos anos, ouviu as minhas piadas heterossexuais de vestiário, meus comentários sobre mulheres, que usou o termo “viadagem” em seus HQs, que está agora aqui, na minha frente, com uma roupa de mulher, um par de brincos, maquiagem e não diz que é travesti, viado, cross-dresser, fazendo uma coisa que eu nunca faria, heterossexual que sou… Como será que ele tá fazendo xixi?”

Que subjetividade é essa, de jornalistas, cartunistas, “formadores de opinião”, que não dá conta da figura do Laerte? O que eles querem elaborar com suas perguntas? É só da figura do Laerte que é difícil de dar conta?

É compreensível que os homens não entendam o que se passa com Laerte ou com transgêneros? É esperável que, em 2012, pessoas tenham dificuldade de lidar com as questões homossexuais, bissexuais? Como você homem heterossexual percebe a sexualidade alheia que escapa da norma?

Será que por a heterossexualidade ser compulsória, torna-se difícil compreender que a opção afetiva/sexual trata-se de uma construção social? Mas a gente espera que jornalistas, homens doutos, tenham em mente a obviedade da construção social, que faz sexo e gênero ser considerados sinônimos pela maioria da população. 

Preocupado com a necessidade de os homens heterossexuais perceberem o quanto se deixam levar pela heterossexualidade estereotipada – que constrói formas de agir, de falar, de pensar e de tocar o corpo do outro –, criei um exercício para os homens heterossexuais medirem/refletirem o grau de sua heterossexualidade estereotipada e compulsória:

É possível pensar que a maioria dos políticos, homens, que estão em Brasília, formulando e discutindo políticas, por exemplo, faria carinho no seu melhor amigo dormindo, que tanto ama e que tanto trocou suas vivências e angústias? É possível um político ouvir uma reivindicação por uma Política Pública, por exemplo, de determinado grupo, pelo reconhecimento legal da união civil estável, adoção por casais homoafetivos, direitos de troca de sexo ou troca de nome, ou de criminalização de atos discriminatórios com relação à orientação sexual,…, sem sentir um certo estranhamento. Estranhamento semelhante, talvez, ao que sentiram alguns homens heterossexuais que fizeram o exercício que propus acima, que nada mais era do que fazer carinho no corpo de um amigo?

Como um político ouve reivindicações de um grupo de transgêneros? O que ele pensa sobre?

É importante lembrar que a maioria dos deputados/senadores/vereadores/prefeitos são homens e heterossexuais estereotipados.

E o que é heterossexual estereotipado? É aquele que não faria carinho no amigo, porque fazer carinho no amigo, para um homem que exerce sua sexualidade como manda o padrão da normalidade, seria coisa de quem não é “homem”, não é heterossexual.

Quem circula por espaços que esbanjam heterossexualidade, sabe que um discurso muito comum de heterossexualidades é coisificar o corpo da mulher e usar a palava “viadagem” para se referir a coisas muito delicadas, talvez.

Mas essa coisa toda que escrevi, essa reflexão sobre sensibilidade, não é para dizer que todos os transgêneros, …, são sensíveis e fazem carinho, mas sim, para dizer que os heterossexuais homens, em sua maioria, considera que quem faz isso não é “homem”.

A questão não é quem e quando deve ser sensível, carinhoso, delicado e com quem deve exercer esses atos, mas sim, porque o exercício que propus acima deixaria de causar estranheza, se eu substituísse o melhor amigo do futebol, por uma melhor amiga do trabalho, loira, alta, com peitos avantajados, etc.?

Essa dificuldade que os homens tem de atuar no campo da sexualidade (como no exercício que propus) pode ser considerada como uma dificuldade que é “enroupada” por uma moral, uma religião, um preconceito, etc…

Parece evidente que essa moral – que acredito que vem da predestinação heterossexual a que somos condenados pela sociedade – é uma das coisas que empacam as Políticas Públicas que dizem respeito à sexualidade.

Na entrevista aparecem muitas perguntas que tentam coisificar o Laerte e a sua conduta. Vamos nos perguntar: Isso é um sintoma de que? Por que essa necessidade de conceituar a sexualidade, de conceituar um exercício, uma prática, …?

Eu diria que não só a entrevista do Laerte empaca – ficando presa a uma discussão sobre os seus porquês, suas questões pessoais, e curiosidades sobre suas práticas – como também a formulação e a discussão de políticas que versem sobre a sexualidade empacam, quando o homem heterossexualzão que mora em cada um dos políticos homens heterossexuais estereotipados, coloca a roupa da moral para evitar entrar em contato com seu próprio corpo, que não é heterossexual por natureza.É preciso que os homens heterossexuais estereotipados tentem resolver seus conflitos próprios, ou seja, sua própria sexualidade, sua negação àquilo que pulsa nas discussões de gênero, que é a heterossexualidade compulsória.

Talvez o que empaca as políticas nessa área, é o que se passa pela cabeça dos políticos: “se é compulsória, quer dizer que eu posso não ser heterossexual! Então, vamos proibir o que o eles querem, porque pode ser que tendo o direito, eu queira casar com meu melhor amigo… E isso não é coisa de homem.”

A entrevista do Laerte (clique aqui).

Vinícius Armiliato é psicólogo clínico (PUC-PR), artista (FAP) e mestrando em Filosofia (PUC-PR). Este artigo reflete as opiniões do autor. O site não se responsabiliza e nem pode ser responsabilizado pelas informações acima ou por prejuízos de qualquer natureza em decorrência do uso dessas informações.

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Discussão

3 comentários sobre “Políticas de Gênero, Laerte e a Heterossexualidade Compulsória: Post para heterossexuais pensarem as questões de gênero

  1. Difícil pensar em:
    Homem heterossexual = sensibilidade = amizade = carinho = amor.
    Por que?

    Publicado por Kysy Fischer | 25 de abril de 2012, 10:39 pm
  2. Talvez… porque não pensamos e praticamos o A M O R~Carinho~Amizade~Sensibilidade~Ser… Ser o que Somos!

    Publicado por anovamente | 27 de agosto de 2012, 2:22 pm

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