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Filosofia, Vinícius Armiliato

Por que pesquisadores das Ciências Humanas não devem ler Nietzsche? Reflexões a partir de um único exemplo

Semana passada falei um pouco do Maquiavel, lembrando que nenhum político assume publicamente o uso da obra do italiano. Quanto a Nietzsche, poderia dizer a mesma coisa:

“Nenhum cientista (das Ciências Humanas) vai contar publicamente que leu Sobre Verdade e Mentira no Sentido Extra-moral”.

Mas isso é uma brincadeira: quem leu Nietzsche, geralmente conta que leu (como essa última afirmação minha é feita porque me é conveniente, sugiro uma pesquisa quantitativa sobre essa questão).

O meu texto dessa semana é sobre a dissociação entre o que se lê e o que se produz. Senti-me envergonhado por já ter acreditado na ciência e entendi porque eu ria enquanto lia Robert Dahl (Poliarquia). Não vamos culpar Dahl por nada, quem sabe ele não leu Nietzsche, mas existe uma porção de leitores de Nietzsche que dissociam suas leituras e suas produções acadêmicas. Quero, portanto, esclarecer que estarei apontando uma dissociação e, com a intenção de deixá-la clara ao leitor, escolhi o texto de Dahl para explicitar na prática uma passagem que Nietzsche coloca em seu texto.

Primeiro, o trecho do Nietzsche:

Quando alguém esconde uma coisa atrás de um arbusto, vai procurá-la ali mesmo e a encontra, não há muito que gabar nesse procurar e encontrar: e é assim: que se passa com o procurar e encontrar da “verdade” no interior do distrito da razão. Se forjo a definição de animal mamífero e em seguida declaro, depois de inspecionar um camelo: “Vejam, um animal mamífero”, com isso decerto uma verdade é trazida à luz, mas ela é de valor limitado, quero dizer, é cabalmente antropomórfica e não contém um único ponto que seja “verdadeiro em si”, efetivo e universalmente válido, sem levar em conta o homem […] semelhante ao astrólogo que observa as estrelas a serviço do homem e em função de sua sorte e sofrimento, assim um tal pesquisador observa o mundo inteiro como ligado ao homem, como a repercussão infinitamente refratada de um som primordial, do homem, como a imagem multiplicada de uma imagem primordial, do homem. Seu procedimento consiste em tomar o homem por medida de todas as coisas: no que, porém, parte do erro de acreditar que tem essas coisas imediatamente, como objetos puros diante de si. Esquece, pois, as metáforas intuitivas de origem, como metáforas, e as toma pelas coisas, mesmas.

Agora, o texto de Dahl, extraído do livro Poliarquia, no qual o autor procura responder que condições favorecem a transformação de um regime “[…] em que os opositores do governo não possam se organizar aberta e legalmente em partidos políticos para fazer-lhe oposição em eleições livres e idôneas […] para um regime no qual isto seja possível”. Ou seja, como um regime político migra de uma prática não-democrática para uma democrática.

Para responder a essa pergunta, Dahl dá entrada em uma nova seção do texto, cujo título é “Conceitos”. Sendo assim, ele primeiro procurará traçar conceitos, para depois encontrá-los atrás do arbusto. Com uma jogada de mestre adverte “não devemos nos preocupar em saber se este sistema realmente existe, existiu ou pode existir”. Jogada de mestre, porque com isso, ele acaba de colocar o conceito atrás do arbusto, sem ninguém ver. Agora, resta-nos encontrar o arbusto (ou o sistema político) para retirar de lá o sistema/conceito do influente pensador.  E as justificações para o uso desses sistemas são riquíssimas, e a cada justificação nova, fica cada vez mais encoberto aquele momentoem que Dahl andava pelo jardim e, sem ninguém ver, escondeu seus conceitos. Sem nenhuma pretensão, Dahl considera que um sistema hipotético desse gênero pode “[…] servir de base para avaliar o grau com que vários sistemas se aproximam desse limite teórico”.

Em seguida ele define mais uma série de pressupostos. Pressuposto: supor antecipadamente! Ou seja, dar ao leitor pressupostos, conceitos fechados, para que seu sistema teórico não caiaem contradições. Isso quer dizer que se você o contestasse, Dahl muito provavelmente lhe responderia: “Olha, mas o que você considera democracia/Estado/condições necessárias à democracia, não é o que eu considero democracia/Estado/condições necessárias à democracia, portanto, escute o que eu tenho a dizer, e observe como o meu sistema teórico é perfeito”.

Mas o que Dahl efetivamente coloca atrás do arbusto é: aquilo que está contido na democratização e seu gráfico esquemático.

Cito Dahl:

“Consideremos, então, a democratização como formada por pelo menos duas dimensões: contestação pública e direito de participação” (em seguida o autor ressalva que podem existir mais dimensões, mas adverte é prefere trabalhar só com esses, porque “a questão, creio eu, já está colocada: desenvolver um sistema de contestação pública não é necessariamente equivalente à democratização plena”. (o grifo no creio é meu).

Isso quer dizer: se você tiver outro conceito/sistema/dimensão, pode guardar consigo, pois o autor quer se propor a desenvolver o sistema dele, com os conceitos dele, aplicáveis aos achados dele. Então ele chega a seu famoso gráfico rumo à Poliarquia, demonstrando em toda a sua argumentação ao longo do texto, que não só escondeu conceitos atrás do arbusto como também, preparou a terra, adubou, plantou o arbusto da sua preferência e encontrou dignamente o achado atrás dele.

O gráfico é esse:

Seria contraditório se eu discutisse os conceitos do gráfico, pois acabaria propondo novos conceitos e depois novos conceitos e, em seguida, novos conceitos, aclamando a cada conceito, um achado que escondi, como Dahl, atrás do arbusto. Portanto, passo direto à conclusão:

Se você leu Nietzsche e quer ser cientista da área de Humanas, aproveite que você tem Inconsciente e dissocie o que você lê do que você produz, ou, se você é daqueles que não tem Inconsciente, não leia Nietzsche.

Vinícius Armiliato é psicólogo clínico (PUC-PR), artista (FAP) e mestrando em Filosofia (PUC-PR). Este artigo reflete as opiniões do autor. O site não se responsabiliza e nem pode ser responsabilizado pelas informações acima ou por prejuízos de qualquer natureza em decorrência do uso dessas informações.

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Discussão

6 comentários sobre “Por que pesquisadores das Ciências Humanas não devem ler Nietzsche? Reflexões a partir de um único exemplo

  1. Gracias Vinicius! Valew por este post!
    Assisti a uma aula sobre Maquiavel como ouvinte na turma de mestrado, aula ministrada pelo Prof. Adriano, e me fez pensar muito sobre as muitas possibilidades ligadas à Sociologia Politica, e chegar à um questionamento onde um dos elementos se traduzem em uma expressão utilizada por Heiddeger: “o que é exato não é ainda verdadeiro” (em La question das thechniques). Mais adiante o autor cita o poeta Hölderlin, mostrando que é no centro da produção humana, seja ela natural (phusis) ou artificial (tekhnè) que mora um perigo a ser considerado, ou seja, “aquilo que aniquila é o que também pode nos salvar”; e isto se trata da produção humana e da técnica dos conceitos… Valew mesmo por nos fazer pensar!!!

    Publicado por Eder Silva | 16 de abril de 2012, 2:44 pm
    • Sim, Eder. O Heiddeger, inclusive tem um belo trabalho sobre o modo que opera o pensamento. É importante pensarmos em que medida apenas falamos e repetimos conceitos ora nos aniquilando, ora nos “salvando”.
      Que bom que o texto lhe foi útil!
      Um abraço

      Publicado por viniciusarmiliato | 17 de abril de 2012, 9:41 am
  2. Muito bom o texto meu irmão, mas não concordo com você sobre a opinião de que todo o cientista de ciências humanas, não deve ler Nieszche, acho que deve ler Nietszche, Maquiavel, Hobbes e até mesmo Robert Dahl, pois todos os pensadores, sociólogos, cientistas políticos e até psicólogos tem em seus discursos um fundo de verdade e mentira sobre a política, a cultura a filosofia, o ser humano é um lobo na pele de cordeiro como o mesmo Nietszche já dizi, ele é um ser em potência, essa potência pode se demonstrar muitas vezes falsas diante da sociedade ao se declarar como um discurso glorioso o ser humano é egoista, ele usa a sua razão para se glorificar diante dos outros semelhantes do que ele. Agora qual é o papel de um cientista da área de humanas que inclui os sociólogos, filósofos, professores, pedagogos, psicólogos, políticos, padres e pastores em seus discursos devem falar a verdade para construir uma sociedade justa, acho que antes de se propagar qualquer ideologia, filosofia, teoria ou psicanálise ou qualquer conhecimento, devemos estudar cada ser individual e ver a sua natureza humana, ver se ele um dia ai ser um ser social como dizia Aristóteles que vai praticar sua cidadania, democracia favorecendo mais a si mesmo, ou seja, escondendo um discurso falso atrás dos arbustros, ou vai favorecer a sociedade e seus semelhantes, ninguém quer ser martir em nossa sociedade atual como Cristo foi na antiguidade, Sócrates morrendo também por sua ideologia, negando o que o Nietsche já dizia ao critcar esses dois a suas vontades de potência. Agora eu lhe pergunto o que o ser humano deve ser, um homem apolínico que leva a lógica e a razão, ou um dionisíaco que leva a vontade, talvés o equilíbrio,ou a emancipação seguido de evolução, Não sabemos como.

    Publicado por Juan Carlos Armiliato Professor, filósofo e Sociólogo Político | 21 de abril de 2012, 7:04 pm
  3. Essa “coisa” de não ler Nietzsche é brincadeira só pode!

    Publicado por Lise Mesquita | 5 de setembro de 2014, 8:47 pm

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