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Cotidiano, Eder Silva

À caminho do eu-puro

Aqueles que acreditam que crêem em Deus, mas sem paixão em seu coração, sem angústia mental, sem incertezas, sem dúvidas, e às vezes até mesmo sem desespero, crêem apenas na idéia de Deus, mas não no próprio Deus.” (Miguel de Unanuno, 1864-1937, do livro O Sentido Trágico da Vida nos Homens e nas Nações).

Mitos de salvação surgem da experiência humana de circunstâncias extremas. A esperança de redenção reside no caminho da Cruz; e o caminho da Cruz não dá prioridades na realização dos desejos naturais de ninguém!

O abismo que há entre o Cristianismo moderno e a espiritualidade da Bíblia pode ser visto também no nosso seletivo uso dos Salmos, que não apenas refletem toda a experiência humana (por exemplo confusão, raiva, medo, ansiedade, depressão, alegria incontida), mas eles nos forçam a parar de fingir que tudo esteja bem conosco, com a igreja, com o grupo de amigos, colegas de serviço, família entre outros. São atos de uma fé corajosa: corajosa, porque eles insistem em que temos que enfrentar o mundo como ele é, e que temos que abandonar toda a ostentação infantil; mas também de fé, porque eles partem da convicção de que não existe assunto proibido, quando se trata de termos uma conversa com Deus.

O que é irônico é que a vida moderna se traduz em momentos de maior dificuldade, confusão, roubo das peculiaridades individuais do que o contexto em que vivia o salmista. Não é de se admirar que muito do ensino atual quanto à fé não seja diferente do “pensamento positivo” dos gurus modernos da administração, conquanto vestido com uma roupagem pseudobíblica. A fé bíblica, entretanto, é exatamente o contrário…

A partir de então, o comportamento religioso tem se tornado uma negação à realidade. Criamos deuses a partir do redemoinho de nossos desejos e ansiedades interiores. Em seu âmago, há um processo apelando para a realização de desejos.

Marx viu Deus funcionando para os crentes religiosos como um comprimido enorme contra a dor (o equivalente moderno do seu ópio), para Freud ele oscilava entre um gigante ursinho de pelúcia e um despótico diretor de escola. Esses dois homens viram-se como protagonistas de uma nova era de libertação através da ciência, embora Freud veio a tornar-se cada vez mais pessimista em relação ao futuro da humanidade por viver até a Grande Guerra e a era nazista.

Ambos consideraram a religião como um obstáculo ao seu programa de libertação humana, porque ela ocultava as origens das causas das aflições humanas.

O que é notável é que, em cada um dos casos, a tradição profética da Bíblia parece ter sido a motivação inconsciente para as tentativas deles de transformar a consciência humana. A crença num destino mais elevado para a humanidade, o conceito da alienação humana, a noção (em Marx) de haver propósito na história e o triunfo final da justiça… Tudo isso são reminiscências de uma cultura que, em algum momento, se achava profundamente influenciada por uma visão bíblica do mundo, por mais que tal cultura possa ter negado na prática essa visão (modernidade). Assim, Marx se utilizou do argumento de Feuerbach crendo que a crítica à religião é o fundamento para toda crítica social, de modo a pôr luz sob toda e qualquer possibilidade de inversão de valores sociais causados pela religião. Feuerbach dizia que: Para enriquecer a Deus, o homem tem que se tornar pobre; para que Deus seja tudo, o homem tem que ser nada.”

Nós nunca compreenderemos Marx se não considerarmos que ele foi criado num ambiente judaico-cristão, e que isso influi no que ele fala.  A sua paixão por expor cada forma de mal social, e por libertar os homens das cadeias da opressão religiosa é a paixão de um profeta do Antigo Testamento. A sua visão é ética, os seus valores frequentemente são, mesmo de forma inconsciente para ele, bíblicos. A característica linguagem de “alienação”, “redenção humana”, “Novo Homem”, e assim por diante, é tomada diretamente da teologia cristã.

Ainda vale o que diz as Escrituras: “A verdadeira religião pura e sem mácula, para com o nosso Deus e Pai, é esta: visitar os órfãos e as viúvas nas suas tribulações e a si mesmo guardar-se incontaminado do mundo” (Tiago 1:27).

“A união com Cristo consiste na mais íntima comunicação com ele, tendo-o diante de nossos olhos e em nosso coração, e sendo assim tomados pelo mais elevado amor por ele, ao mesmo tempo em que voltamos o nosso coração aos nossos irmãos, com os quais ele nos ligou, e por qeum ele também se sacrificou…” (Karl Marx, aos 17 anos de idade, no ensaio: A união dos crentes com Cristo de acordo com João 15:1 – 14).

Marx, nesse ensaio, tomou também como base o que um dos pais da igreja, João Crisóstomo (c. de 377-407) corajosamente argumentou aos nobres de Milão:

Isso também é roubo, não dar aos outros o que se possui. Talvez esta afirmativa soe surpreendente para você, mas não se surpreenda… Assim como um oficial no tesouro estatal, se ele negligencia em distribuir para quem lhe tenha sido ordenado, mas retém para si por sua própria indolência, tem que sofrer a pena, sendo posto à morte, da mesma forma o rico é como um mordomo do dinheiro que possui para ser distribuído aos pobres. Ele é dirigido a distribuí-lo a seus servos que estejam em necessidade. Desse modo, se ele gastar consigo mesmo mais do que sejam suas necessidades, ele terá que pagar a mais dura pena depois. Pois os seus bens não são propriedade sua, mas pertencem a seus servos… Rogo que você se lembre disso sem falta, que não compartilhar os bens com os pobres é roubar os pobres e privá-los de seu meio de vida; nós não possuímos nossos bens, mas sim os deles. (João Crisóstomo, Sobre a Riqueza e a Pobreza).

Semelhantemente o grande Pai da Capadócia, Basílio da Cesaréia (c. de 329 – c. de 379) repreendeu cristãos que eram ricos com uma linguagem que é ouvida com maior frequencia nos piquetes das fábricas do que em templos religiosos: “O pão que você guarda consigo pertence ao faminto; o agasalho que você deixa dentro do seu armário, ao desnudo; os sapatos que você possui e que estão apodrecendo, ao que está descalço; o ouro que você tem muito bem guardado, ao necessitado. Portanto, todas as vezes em qeu você teve condições de ajudar alguém, e recusou-se a isso, você então lhes fez um mal. (Basílio da Cesaréia, em discurso proferido em Ávila).

C. S. Lewis foi muito feliz em seu comentário: “Fale comigo sobre a verdade da religião, e vou ouvi-lo com alegria. Fale comigo sobre o dever que a religião impõe, e vou ouvi-lo com submissão. Mas não me venha falar sobre as consolações da religião que vou achar que você está por fora.” (C. S. Lewis, em Um Pesar Observado).

Penso que, quando nos é ofertado o direito e o deleite de falar ao próximo, devemos falar como que escutando o que o coração do próximo tem realmente o que escutar, ou seja, focar o que o próximo necessita e não o que o nosso ego tem a dizer, viciosamente.

Há um entorpecimento por parte de muitos que pensam proclamar a verdade, mas que, em paradoxo, proclamam simplesmente o que querem que sua presunção tem a persuadir.

Creio que a grande luta de Sócrates, na Grécia Antiga, tenha sido justamente contra os sofistas, e aqueles que tinham por princípio comercializar o conhecimento, persuadindo os homens a comprar suas idéias, mesmo que despojadas de sabedoria. Pois a sabedoria nada mais é do que o conhecimento compartilhado, e útil para a edificação e construção do pensamento.

Hoje, quase que involuntariamente, recebemos através da tecnologia (internet), um turbilhão de mensagens, através de textos, imagens, sons, etc; mas, há muito lixo informacional no meio desta aldeia. Muito pouco se aproveita. Faz-se necessário selecionar aquilo que recebemos. Há conhecimento, mas muito pouca utilização deste, muito pouco proveito, portanto, não é sabedoria aplicada. Isso eu aprendi muito bem quando cursava Gestão da Informação.

Tudo o que é proveniente de algum proveito unilateral, tenho por “proselitismo”, ao passo que, quando nos desprendemos, nos comovemos com uma interatividade, onde há compartilhamento de experiências e idéias, há ali portanto, produção do saber.

“O vácuo criado pela perda da criação artística e da experiência responsiva é preenchido ultimamente no mundo moderno. O secundário tornou-se o nosso narcótico. A humanidade alfabetizada é assolada diariamente por milhões de palavras impressas, transmitidas pelo rádio e vistas nas telas de TV com respeito a livros que ela nunca vai abrir, sobre músicas que não vai ouvir, sobre obras de arte que nunca vai contemplar. Um zumbido perpétuo de comentários estéticos, de julgamentos precipitados, de expressões pomposas pré-fabricadas preenche todo o ar. Presumivelmente, a maior parte de toda fala artística ou reportagem literária é apenas lida por alto e não propriamente lida, é ouvida, mas sem se prestar a atenção… Como sonâmbulos, somos guardados pelo sussurro entorpecente do jornalístico, do teórico, em relação ao frequentemente estridente e imperioso fulgor de uma completa presença” (STEINER diz no livro: Presenças Reais: Há Alguma Coisa no Que Dizemos?)

Quando o assunto é a Beleza da Soberania e Sabedoria divina, a coisa fica um tanto mais confusa, para alguns. Estes imaginam um Deus a serviço da criação, um deus de saia como diria CAZUZA na música Cobaias de Deus; um Deus em serviços domésticos a um sistema corrompido por causa de nosso próprios interesses unilaterais e por nossa própria permissão e responsabilidades.

O sofrimento cristaliza, como nada mais, os dilemas e os pesadelos de uma vida sem Deus. É um nervo inflamado que, se tocado, desperta uivos de raiva e angústia, especialmente hoje em dia. Certamente, quando podemos ir até a lua, apesar de acreditar ser uma farsa, e andar através do espaço com uma velocidade incrível; quando nossos órgãos são transplantáveis; quando temos como comer sem engordar, copular sem procriar, dar um brilhante sorriso sem estar feliz; certamente o sofrimento deveria ter sido banido de nossa vida. Ter que continuar a sofrer, e ver outros sofrendo, isso para nós é uma afronta; e a divindade que, tendo o poder de interromper o sofrimento, ainda permite que continue, teria que ser um monstro, não um Deus amoroso. Como que se, quando um equipamento emperra e fica com defeito, nós o odiamos totalmente, e procuramos pelo fabricante ou o mecânico para xingar. Aos olhos daqueles que vêem os homens como máquinas, Deus é o fabricante, e o mecânico é o seu sacerdote.” (adaptado de M. Muggeridge, em Algo Belo para Deus).

Como muito bem disse o teólogo e filósofo Emil Brunner no seu artigo “O homem revoltado”: Em cada civilização, em cada período da história, é verdade dizer: Mostrem-me o tipo de deus que vocês têm, e eu lhes direi que tipo de humanidade vocês possuem.

Com a finalidade de ressaltar mais ainda este pensamento, recorro ao que disse o jovem poeta inglês Thomas Thraherne (1637-1674): – “até que o mar flua em suas veias, até que você se revista dos céus, e seja coroado com as estrelas; e perceba que você é o único herdeiro de todo o mundo; e, mais do que isso, porque todos os homens são igualmente esse único herdeiro, tal como você. Você não poderá usufruir do mundo até que você cante e alegre-se e tenha o prazer em DEUS, tal como os avarentos se alegram com o ouro, e os reis com o cetro.” Esse pensamento traduz o fato de que esse conhecimento de Deus que temos, impeça-nos de tanto decairmos para a adoração do mundo em si como de denegri-lo e explorá-lo para nossos próprios fins egoístas, como o fazem os religiosos proselitistas, empresários ultra-capitalistas, governantes ambiciosos cujas mentes já foram entorpecidas pelo poder, etc.

Devemos ter em mente que não foram os pecadores, mas os “religiosos” e os “donos do poder” que rejeitaram o Salvador. Assim, o escritor bíblico diz que “saiamos, pois a ele, fora do arraial, levando o seu vitupério. Na verdade, não temos aqui cidade permanente, mas buscamos a que há de vir” (Epístola aos Hebreus 13:13-14). Os discípulos de Jesus são chamados para ir lá onde Jesus já está: descartado pela religião. Eles têm que compartilhar da sua “desgraça”, o escárnio e o ódio que toda comunidade religiosa antiga dirige àqueles que ousam dizer que a devoção e a tradição nos podem separar de Deus e que os não religiosos podem estar mais perto do reino de Deus do que os “justos” (cf. Rm 4:5; Lc 18:9-14). Esse ir para o lado de fora é uma figura da conversão cristã, ou seja, é a conversão de qualquer forma de religiosidade para Cristo, unicamente. Não é a conversão para uma religião melhor, mas um encontro pessoal e constante com o Redentor, conforme o que Jó expressa no capítulo 42.

Há muito tempo atrás, um homem de conduta religiosa permitiu-se descontruir todos os rudimentos e falsa espiritualidade enxertados nele através de uma sociedade hipócrita e de barganhas, dizendo assim: “Bem sei qeu tudo podes, e nenhum dos teus planos pode ser frustrado… Eu te conhecia só de ouvir, mas agora os meus olhos te vêem. Por isso, me abomino e me arrependo no pó e na cinza (livro de Jó 42:2, 5-6)

Ali houve uma ruptura entre o eu-si e o eu-nós, enxergando o todo Naquele em que tudo e a todos criou. Foi o que Bakunin tentou ressaltar nos seus ensaios, foi o que Zamyathin traduziu na sua ilustre e inédita obra “Nós”. Foi o que tantos outsiders (o pregador George Fox, Walt Whitman, David Henry Thoreau, o visionário T.S. Eliot, Dostoyevsky, Pasternak, Burgess, poetas e escritores da geração beat entre outros) tentaram expressar à humanidade, com seus uivos eletrizantes a uma geração monotonamente e confortavelmente hipócrita, perversa, dominadora , imperialista, e cujas consciências estavam entorpecidas, entranhadas em seus vãos deleites, enxertados no “american way of life”.

É próprio do imperialismo laçar seus tentáculos para além de seus domínios, um movimento a um só tempo de expansão e dependência. Representa, ao nível comunitário, o protótipo da exploração do homem pelo homem. A tentativa em reconquistar o domínio perdido, entregue ao adversário, no Jardim do Eden. E o outsider vê esta tragédia por outros ângulos, busca outra essência, outro raciocínio, outra visão.

A expansão imperialista não é, portanto, uma expansão qualquer. Realiza-se sempre às expensas de alguma vítima. Esta última trabalha e produz mais do que recebe, revertendo parte dos seus esforços em proveito do imperialista sem uma justa contrapartida. O imperialista é, pois, aquele que se apropria de mais do que ele produz – e é nisto que consiste a sua expansão – enquanto sua vítima colonizada é aquela que se apropria de menos do que ela própria produz.

O ócio remunerado pelo trabalho alheio, o sentimento de superioridade narcisista face àqueles que coloniza, tudo isto faz surgir entre imperialista e colonizado um vínculo sádico de dependência. Acostumando-se a essas regalias, o imperialista acaba por atrofiar certas funções de suas possibilidades e fica assim impossibilitado de um desenvolvimento integral, de uma autêntica autonomia. Poderemos portanto descrever todo imperialista como um “drogado”. Do ponto de vista do colonizado, as coisas já não são fáceis de ser compreendidas. De início é natural, o colonizado se revolta, reúne todo o seu ódio e o seu rancor na luta contra o dominador (a luta de Classes de Marx e Engels). Contudo, dada a diferença objetiva de força acaba por se dobrar. Até aí, tudo bastante simples. Entretanto, insólitos são os caminhos de uma psicologia prolongadamente silenciada nas suas reações: com o passar do tempo (o tempo é fundamental) observa-se no colonizado um esmaecimento da revolta, chegando quase sempre a uma submissão voluntária e algumas vezes até a uma docilidade pervertida. A exploração evoca-lhe sensualidade, a opressão ternura. Passa verdadeiramente a amar o dominador, a depender sinceramente dele. Renuncia de bom grado a sua consciência reflexiva, abandona sem hesitações suas aspirações de soberania e passa então a nortear seu procedimento conforme os ideais de seu dominador; o que cabe fazer, como deve pensar, o que deve desejar (um exemplo é o selvagem de Admirável Mundo Novo de Huxley). Do ato de obediência às normas dominadoras extrai intensa sensação de proteção (cobertura) e de bem-estar, podendo, tranquilo de consciência, dormir um ano sem as culpas e os remorsos das desobediências. A “boa consciência” é o bem supremo da mente colonizada e uma vez estabelecida completa-se o processo imperialista de colonização, estabilizando-se as primeiras instabilidades. Estabelece-se assim um vínculo masoquista de dependência no colonizado, e pelas mesmas razões, só que invertidas às do imperialista, poderemos também dizer que todo o colonizado é um “drogado”.

Dependendo do imperialista, desta dependência extrai o prazer, desse prazer extrai o orgulho, com este orgulho nega sistematicamente os efeitos sinistros dessa dependência sobre seu corpo existencial.

Podemos então concluir que todo o universo imperialista está caracterizado pela inevitável “narcotização” de seus participantes, sejam eles colonizados ou colonizadores. Se para o colonizador as “drogas” são as regalias evidentes do processo, pra os colonizados as “drogas” são os privilégios do infantilismo psicológico.

A dialética imperialista originalmente vem associada à exploração entre nações, mas pode, por extensão, aplicar-se às relações de exploração dentro de um país, de uma cidade, de uma corporação, de uma família e, mesmo, de uma personalidade.

Evitando uma possível reação por parte do colonizado, tenta mascarar a realidade, encobrir as evidências, confundir a verdade, podemos dizer que a propaganda ideológica polui consciências e envenena o conhecimento.

Deste modo, uma mesma produção cultural que num lugar ou numa época possa funcionar como agente de libertação e desalienação de consciências pode, noutro lugar ou noutra época, funcionar como um agente do entorpecimento e da alienação das consciências.

Alienação que justificaria o fato do homem de se submeter à escravidão. Essa capacidade de resistir vivo, mesmo como escravo, não pode ser explicada sem se recorrer ao poder da fé, do qual o poder do amor seria apenas uma subsidiária ou uma eventual encarnação.

Já foi dito que o prazer obtido pelos poderosos tem caráter sadomasoquista. Mas, como é sentido e vivido, esse tipo de prazer pode ser realmente considerado felicidade? Refiro-me à felicidade fruto da apropriação indébita e da expropriação autorizada e impune, como aquela do ladrão que rouba de ladrão.

Para que o homem se permita substituir o prazer de viver pelo poder de ter, algo aconteceu antes em sua fisiologia e em sua psicologia naturais e espontâneas.

Para alguns, o prazer de viver pode ser traduzido por AMOR. Mas o que é amar, além daquilo que explicam a fisiologia e a biologia? Sente-se por ele, precisa-se dele, delicia-se nele, acaba-se por ele, morre-se por ele, mata-se por ele, enfim, mas não se sabe o que, de fato, é ele.

Porém, quando usa-se ele como poder, contrariando sua natureza, sabe-se perfeitamente ao que ele se transforma: a maior e mais perigosa arma de chantagem autoritária que existe, através da qual se invalida o impulso da liberdade das pessoas, da espontaneidade de se amarem, verdadeiramente, sobretudo enquanto amadas e amantes. Mas para que possamos manipular a vida dos que nos amam e que dependem de nós, elas necessitam supor que somos o melhor, o maior, o único amante possível em suas vidas. Mas será sempre catastrófico o resultado da utilização do amor a serviço do poder, seja ele autônomo, religioso ou político,  porque manipulado dessa forma vai ocorrer, infalivelmente, a destruição do próprio amor. Só a liberdade, a autonomia e a verdade nos ensinam a aceitar biologicamente e humanamente o tempo, o espaço e o amor pelas coisas vivas.

Assim, para essas pessoas “drogadas”, a esperança de vir um dia a ser feliz transforma-se, para eles, numa espécie de dependência narcótica. Essa dependência, pelo menos, os mantém aparentemente vivos, embora sem amor espontâneo algum, quer dizer, mortos, mas ainda “insepultos”, como diz nas escrituras: “Deixai os mortos sepultar os seus mortos”.

Mas esses fatos podem nos levar a afirmação de que nesta sociedade os mortos comandam os vivos, num processo de desvivência progressiva. Mas, em paradoxo, devemos gritar: Morremos, porém não desvivemos!

Claro que o inimigo está bem armado e treinado para as batalhas cotidianas. Alucinados e insaciáveis, os profetas da pseudofelicidade estão muito longe de se convencerem.

Querem a todo custo propagar a teoria da necessidade de dominação, do extermínio da capacidade de raciocínio reacionário, da criatividade e espontaneidade de se amar.

Assim sendo, podemos afirmar que a alegria de se amar está no modo simples e direto e gostoso de se expressar no âmbito funcional, espiritual, físico, emocional, psicológico, afetivo, sensual, ético e ideológico.

Como tal, deve ser, por natureza, sempre lábil, instável e furtiva, como acontece com as coisas que não existem por si próprias.

E isto provém do Espírito; alegria, coisa tão incerta como o vento, que é tão forte que às vezes vira tufão, outras parece brisa suave, que pode vir do sul ou do norte, do leste ou do oeste, mas que vem, queiramos ou não, do Criador, e na hora que bem entender.

É amor espontâneo, é a vida numa pulsação, com a qual o ser vivo expressa sua existência.

Eder Silva é turismólogo (UP) e gestor da informação (UFPR). Este artigo reflete as opiniões do autor. O site não se responsabiliza e nem pode ser responsabilizado pelas informações acima ou por prejuízos de qualquer natureza em decorrência do uso dessas informações.

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Sobre Eder Silva

I'm a outsider

Discussão

Um comentário sobre “À caminho do eu-puro

  1. Que texto potente e sincero este amigo outsider… agradecido pelo saber compartilhado e refletido! abraços.

    Publicado por anovamente | 3 de setembro de 2013, 9:52 pm

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