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Filosofia, Vinícius Armiliato

Especulações não-científicas sobre o que pode ser a Sociologia Política

Para discutirmos Sociologia Política, precisaremos fragmentar o nome da disciplina. Primeiro pensar o que é sociologia para, em seguida, pensar o que é política. Depois, fragmentaremos as palavras: socio/logia; e polis/…?). Vou especular, a partir desses cortes nas palavras, o que poderia tratar essa disciplina. Então, atenção: para esse post não pretendo fazer uma investigação acadêmica, científica, sobre o que é, de acordo com pesquisadores, a Sociologia Política, mas sim, pensar o que ela pode nos apresentar a partir de sua palavra mesma.

A sociologia pretende-se ciência. E o que mais me incomoda é o seu anseio científico. A linha de(do) pensamento é a seguinte: Descartes propõe a possibilidade de cientificizar o mundo, Comte de cientificizar a sociedade, Durkheim os fatos sociais,  Weber o poder, o Estado…

Pois bem… Todos sabemos que a palavra logia se imiscui com outras para representar uma ciência. Psicologia, Biologia, Dermatologia, Cardiologia, Geologia, Etologia, Genealogia.

Logos, razão e ciência. Parece que ciência é aquilo que apresenta uma validade/vitalidade independente da vontade de um sujeito. Uma descoberta científica é isenta de subjetividade, já que usa de modelos, conceitos, regras que se apresentam independente de quem realiza a experiência ou a quem a descoberta científica pode estar servindo. O importante de um achado é seu caráter científico.

Dois exemplos clássicos para todo esse meu palavrório:

 Exemplo A

2 + 2 = 4. Nós que não fizemos faculdade de matemática não vamos discutir a equação.

 Exemplo B

Premissa A: Todo homem é mortal; Premissa B: Sócrates é homem; Conclusão: Sócrates é mortal.

Então, para ser científico, devo me apropriar de lógicas e abstrações semelhantes às que apresentei (existem muitas outras), para que eu possa atestar uma verdade.

A sociologia, científica, poderá construir verdades lógicas, se antes se ater a definir os conceitos a partir de um modo de operação teórica semelhante a esses acima.

Um exemplo baseado em Weber, que não chega a ser um silogismo como o Exemplo B mas, tem considerável semelhança no modo de articulação:

Premissa A:

Estado detem o monopólio da coação física legítima (violência);

Premissa B:

Política é a tentativa de participar/influenciar no poder do Estado ou grupos humanos;

Conclusão:

Política é a capacidade de influenciar onde a coação física deve ser dirigida.

Podemos ainda tirar muitas outras conclusões a partir do exemplo acima: “o poder pode ser o direito de exercer a violência física”, “o Estado é quem tem poder, visto possuir um exército legal, que deterá o monopólio da violência e a imporá no caso de necessidade”, …

Pois bem, nota-se no texto de Weber (Economia e Sociedade, vol 2, Seção 8, § 2) que há uma preocupação em – antes de tirar conclusões ou traçar análises – definir os conceitos de cada premissa com propriedade e refinamento (e isso aparece com bastante clareza na obra do pensador). Weber pensa no que vai considerar o Estado, no que vai considerar a violência e, no que vai considerar o poder.

Mesmo apresentando apenas UM exemplo, o considero suficiente para mostrar como opera a Sociologia. Socio, algo da ordem do social, da comunidade, logia, algo da ordem da ciência. UM exemplo é raso para especular o que é a Sociologia, mas posso considerar raso também, pensar o poder de acordo com UMA ordem do conhecimento (essas Ciências Humanas fruto da modernidade, que acreditam que é possível pensar o homem como um objeto de estudo da ciência). Isso também é raso. Não vejo problema no que Weber pontua (afinal o rapaz morreu há quase 100 anos e, situado em seu tempo, nada mais fazia do que ciência), mas vejo problema na forma que a Sociologia/Ciências Humanas se apropria/m do conhecimento ao restringirem-se a autores-sintoma da modernidade (eu diria, bons cientistas: Weber, Comte, Durkheim, Bacon, …) ou a organizar seus constructos teóricos como se fossem autores modernos.

Pois bem, para boicotar o que escrevi, uma definição a la Weber, a la autores modernos, a la acadêmicos contemporâneos que escrevem constructos modernos: sociologia é essa arte capaz de mostrar uma verdade lógica a partir de 2 ou mais constructos/premissas.

E a política? A política é, para o Bobbio (Dicionário de Política), em um significado clássico e moderno, “tudo o que se refere à cidade”.  Disso, o verbete POLÍTICA se desdobra em 9 páginas. Nessas 9 páginas muito mais que dois constructos são colocados. Bastante ciência!

Naquilo que se refere à cidade, podemos pensar em dois textos capitais: A República, no qual Sócrates (ou Platão), forçosamente, acha meios de encontrar um emprego na política para os filósofos, através de argumentos sobre a necessidade de ser justo o homem que governa e; O Príncipe, de Maquiavel, no qual o autor acha meios de encontrar emprego na política, através de conselhos que consideram como as articulações políticas realmente acontecem (como diria a minha vó, na senvergonhice). Como Platão e Maquiavel nasceram antes de a ciência moderna estar bem definida e acabada, não se preocuparam com silogismos, métodos de acessar a verdade ou o conhecimento de como as coisas devem ser, mas sim cada um com sua moral, assumida e escancarada convence, argumenta, persuade, aconselha o que considera uma forma de lidar com a cidade/governados.

Não sei o que é política e não vejo por onde começar uma especulação, mas – apenas para brincar de Sociologia Política – se eu falasse “Política é a arte de se manter no poder”, essa definição de política só seria científica se eu conceituasse o que, nesse texto, entendo por arte, entendo por poder, por manter-se e por fim, o que entendo por política.

Por política entendo tanto o que Maquiavel expõe no Príncipe – o texto escrito, com todas as dicas para se governar bem, com paz e segurança de mandatos –, quanto a arte de se beneficiar do texto de Maquiavel e dizer que nunca leu Maquiavel, ou de nunca citá-lo em palanques. Isso é político(a?)

A arte de usar o texto do Maquiavel para fundamentar um texto de Sociologia Política, é uma atitude política (pois fundamenta cientificamente um argumento). Se aquilo que Maquiavel recomenda ao Príncipe é política, é também política o que reproduzimos dos conselhos de Maquiavel na nossa vida cotidiana, sem talvez nunca termos lido Maquiavel: nossa necessidade de nos manter empregados, nossa necessidade de conseguir uma nota mínima na faculdade, nossa necessidade de ser bem quisto pela comunidade acadêmica ou artística, nossa necessidade de fazer boas alianças, de evitar conflitos. Política é uma necessidade de se manter no mercado de trabalho (seja qual for o nicho). As demais necessidades, como mudar o mundo, ajudar os necessitados, implantar mais moradias, ajudar os pobres, dar mais remédios, assistência a saúde, melhorias no acesso à educação de qualidade, são necessidades dos santos, e não dos políticos.

Vinícius Armiliato é psicólogo clínico (PUC-PR), artista (FAP) e mestrando em Filosofia (PUC-PR). Este artigo reflete as opiniões do autor. O site não se responsabiliza e nem pode ser responsabilizado pelas informações acima ou por prejuízos de qualquer natureza em decorrência do uso dessas informações.

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